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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

Dia Mundial da Criança

Outra vez

Olá, Sobrinha.

Hoje é, outra vez, Dia Mundial da Criança. Na verdade, deveria ser Dia da Criança todos os dias, mas hoje é um dia especial porque, há quase cem anos, vários senhores em vários países perceberam que sem crianças felizes não poderíamos ter um Mundo bom. E começaram a organizar-se para que as crianças pudessem ser crianças e deixassem de ser tratadas como se fossem adultos pequeninos, para que pudessem brincar e estudar e crescer sem trabalhar.

Os senhores de muitos países organizaram-se e escreveram uma lista das coisas que todas as crianças deveriam ter. Uma lista que há exactamente trinta anos se tornou lei, uma das leis mais importantes do Mundo! 

Mas nem todos os adultos percebem como esta lista é importante, Sobrinha, e por isso ainda há crianças tristes todos os dias. Mas temos de tentar que sorriam, Sobrinha! Não podemos parar de tentar! E, para isso, temos de começar por cumprir esta lista.

Nunca a esqueças!

 

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(clica aqui! imprime este poster e oferece aos teus amigos!)

 

A Sobrinha senhorinha

Sobrinha, estás uma criança muito alta, nem pareces ter 7 anos. E a Mana também está muito alta, mas a Mana já é uma adolescente, tem 13 anos. Dão-se muito bem, e conseguem encontrar interesses comuns, a Mana fazendo-te algumas vontades nas brincadeiras e tu tentando acompanhar os interesses da Mana.

E também é bonito ver como tratas os meninos e meninas mais novos do que tu, o ar calmo que tens quando brincas com eles jogos que há muito deixaram de te interessar e o cuidado e a atenção com que respondes às suas perguntas. 

Tu não te apercebeste, mas a tua Mãe ouviu um bocadinho da conversa que tiveste com a M., de 3 anos. E, claro, contou à Avó e à Tia, pois é uma forma de nos mantermos ligadas - como quando tu fazes caretas por falta de novidades...

Mas vou tentar que tu me contes o que conversaste com a M.. Gostaria de ouvir a tua versão. E a tua explicação. Aliás, penso que todos estamos desejosos de perceber a tua explicação.

Porque quando a M. te perguntou:

- Ainda és uma criança?

Tu respondeste:

- Não, sou uma pré-adolescente.

 

Brincadeira assim-assim

Ou quando os adultos e as crianças têm noções distintas de "nada para dizer"

Um destes dias, ao telefone:

- Sobrinha, conta-me como tem sido a vida na escola e fora da escola!

- Oh, Tia, não tenho novidades...

- Mas... não aprendeste nada novo, não fizeste nenhum disparate, não inventaste uma historinha, sequer?

- Nada, Tia...

E começaste a fazer caretas para a câmara, e quanto mais eu tentava falar contigo mais patetices fazias.

Tendo mais o que fazer, pedi-te para conversares um bocadinho ou teria de desligar...

e, despedindo-me, desliguei, porque tu calada e a câmara apontando para as paredes, para a rua, para todo o lado menos para uma Sobrinha em conversa com a Tia.

Um minuto depois recebi a mensagem:

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Enfim, já tenho trabalho para os próximos tempos: rever a diferença entre "brincar" e "fazer perder tempo e paciência". Contigo.

 

Tenho tantas saudades tuas, Sobrinha!

 

O sinal

No Verão fizeste um desenho. E recortaste-o. Disseste que estavas "a fazer uma coisa para quando nos vestimos".

Demoraste mais do que esperavas. E no final disseste ser para pendurar na porta do guarda-vestidos, para se saber que era um guarda-vestidos.

- Muito bonito, Sobrinha! Mas olha que nem a Tia nem a tua Mãe nem tu alguma vez duvidámos se o guarda-vestidos era ou não era um guarda-vestidos, por poucos vestido que lá tenham sido guardados ao longo de tantos anos...

- Oh, Tia, era uma boneca para as senhoras nas lojas da Mãe saberem onde se devem vestir. E quando entrassem penduravam isto e as outras senhoras sabiam que estava lá gente e já não entravam...

- Boa ideia, Sobrinha! Por isso é que tinha esta fitinha...

- Sim, Tia, era para se pendurar por aí. Mas só fiz uma e não me apetece fazer mais... Pode ficar aqui no guarda-vestidos, pois pode, Tia?

- Ah, está bem, fica a enfeitar. Mas a ideia era muito gira e útil.

- Então, Tia, fazemos assim:  quando te estiveres a vestir penduras na porta do quarto e eu não entro nem bato à porta porque já sei que te estás a vestir, está bem?

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A "boneca"

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O sinal

As decorações de Natal da Avó

A Avó gosta das decorações de Natal. Tu também gostas, e ficavas sempre muito feliz quando chegavas e vias as luzes e o presépio e as grinaldas e as velas... 

Há dois anos, cheguei a casa da Avó na última quinta-feira de Novembro, e as salas e a cozinha estavam já decoradas. 

Perguntei à Avó:

-  Não é cedo para decorares a casa?

- A minha Neta vem passar o fim-de-semana, e eu quero que ela veja a casa assim bonita! 

No dia seguinte, cheguei para jantar antes de tu e os teus pais chegarem, e a Avó andava atarefadíssima a mexer nas decorações de Natal. A retirar tudo o que havia colocado no dia anterior!

Perguntei-lhe:

- Então o que se passa para andares a retirar a decoração?

- A tua Irmã ligou-me antes de saírem, a tua Sobrinha queria falar comigo.

- A sério? Mas se já vinham a caminho... o que queria a miúda?

E a Avó imitou-te:

- "Sabes, Avó? Estive a pôr as coisas de Natal na minha casa, com a Mãe e com a Mana. Ficou muito bonita, tirei fotografias para veres. E, olha, podias ir buscar as tuas coisas à garagem? Porque amanhã de manhã está frio e eu queria arrumar a casa para o Natal contigo e com a Tia... podes, Avó?"

Desde então que a Avó deixa metade da casa por decorar até à tua chegada.

A Tia percebeu o que era bom para a tosse

Os doces nunca fizeram parte do teu quotidiano.

Terias uns 4 anos, a Tia descobriu umas gomas muito boas de eucalipto e outras de limão, que ajudavam a aliviar a tosse. Por isso, havia sempre uma bomboneira em casa da Tia e outra em casa dos Avós cheiinha de gomas de eucalipto e de limão! E dissemos-te que não eram guloseimas, que eram gomas para chupar quando se tinha muita tosse.

Mas cedo percebi que, mesmo assim, não poderia continuar a ter gomas nas bomboneiras...

- Sobrinha, já comeste três gomas hoje, não podes comer mais!

- Cof, Cof, Cof, Tia, estou com tanta tosse...

- Estás, querida? Então anda cá, a Tia dá-te uma colher de xarope.

- Não, Tia, a tosse já passa quando acabar esta goma, queres ver?

 

A Fada dos Dentes também tem culpas

Ontem, em videochamada, mostraste-me o vazio de outro dente caído.

- Tia, e sabes? A Fada deu-me 5 euros... mas esqueceu-se do dente na cómoda do meu quarto!

- A sério? Ai que Fada distraída! Então, se usares o dente outra vez como é que ela vai saber que já te deu dinheiro por ele?

- Oh, Tia, mas eu não vou usar! Não pode ser, é batota!

- É, sim, Sobrinha. Mas imagina se ela faz isso com outros meninos, e que alguns desses meninos resolvem fazer batota...

- É injusto. Mas a culpa também é da Fada, não se pode esquecer assim dos dentes, Tia!

Porque não têm surgido postais

A Tia precisa de tempo para tirar as tuas histórias do baú onde saltitam. Sim, as memórias que tenho contigo pulam, riem, rodopiam nos pensamentos onde as guardo. E quando as quero escrever tenho de as segurar com cuidado para que não fujam, irrequietas como tu num jogo da apanhada... não param no mesmo sítio, agora uma, ainda a meio e já outra... tantas no mesmo instante!

Preciso também de tempo para recordar o que já contei - não queremos tropeçar duas vezes na mesma história, pois não?

Está quase... e entretanto lê, Sobrinha. Ler é correr mundo sem sair do lugar. E tu já sabes ler, já me podes ler ao telefone as histórias que escreveres ou que descobrires nos livros e desenhos que te aguardam.

 

Agora ainda não, mas mais velha também gostarás deste quase poema onde a Gaffe, aquela amiga que pintou as paredes deste teu quarto de brincar, fala das sobrinhas que aprendem a ler... Ela também é tia, e por isso sabe o que diz. Um dia verás!

Saudades de gente pequena

Ou a canção certa na voz errada

Há um ano, talvez dois, a tua Mãe ligou-me seria quase meia-noite.

Havias estado quase duas semanas com a Tia e com os Avós, e estarias em casa há três ou quatro dias quando, ao adormecer, tiveste uma crise de choro.

Ao princípio a tua Mãe não percebeu o que se passava, depois lá disseste que querias ouvir uma música. A tua Mãe cantou várias, mas nenhuma era aquela... e finalmente falaste na Canção de Embalar. Como não sabia a letra toda, ligou o You Tube e esteve uns largos minutos a repetir Zeca Afonso e outros cantores que encontrou. Acalmaste um pouco, mas as lágrimas ainda caíam... e não conseguias adormecer.

Em desespero, a tua Mãe telefonou em videochamada:

- Mana, a miúda está a chorar há mais de uma hora, não consigo adormecê-la, pediu para falar contigo...

- Então, Sobrinha, o que se passa?

E tu, chorosa e com ar de sono:

- Tia, cantas?

Não precisei de perguntar que canção querias. Comecei "Dorme, meu menino, a Estrela d'Alva", e ainda não ia a meio quando a tua Mãe me disse baixinho:

- Mana, vou desligar. Ela adormeceu...