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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

História a duas mãos

- Tia, contas-me a história da Princesa Piolho?

- Não conheço essa história, Sobrinha...

- Mas foste tu que a contaste na outra semana, Tia!

- Ah, é uma daquelas histórias que a Tia inventa...conto-tas e esqueço-as...

- Tia, tens de as escrever para não as esqueceres...

- Devia, não devia, Sobrinha? E que tal escreveres tu as histórias que a Tia te conta? Podias começar por essa, a da Princesa Piolho.

- Tia, eu não me lembro de tudo... mas não há problema se contar à minha maneira, pois não?

- Claro que não, até fica muito mais giro!

E ficou assim...

(continua)

Ipod, o actual melhor amigo da Sobrinha

Ontem, ao almoço em casa dos Avós, o último antes do início das aulas:

- Que fruta queres, Sobrinha?

- Não quero fruta, Tia...

- Não?! Nem uma ameixa que o Avô apanhou, nem um morango da horta da G., nem uma fatia de melancia da horta do Bisa?

- Não, Tia, obrigada, não quero fruta.

- E um geladito, queres?

- Não, Tia, não me apetece...

- Humm, queres sair da mesa para ires jogar no ipod, é isso?

- É... 

- Calculei... mas não vais, sabes que a Tia não te deixa estar muito tempo com o ipod porque gosta que tenhas uns olhos saudáveis.

- Oh, Tia!

- Podes ir ver um bocadinho de televisão, podes ir brincar para a rua, podes ir ler ou fazer desenhos, mas jogar com o ipod não, jogaste antes do pequeno almoço e já chega. Até porque os avós vão levar-te a casa e certamente queres jogar um bocadito pelo caminho...

- Oh, Tia, mas no carro não tenho rede!

- Jogas um jogo que não precise de rede. Agora podes levantar-te da mesa e ir fazer quase tudo o que te apetecer, mas não jogar com o ipod.

- Estás a ser má!

- Não, estou a ser boazinha porque estou a defender os teus olhos. E agora, não queres sobremesa?

- Não!

- "Não, obrigada." Podes levantar-te.

Passado um bocadito, peguei num cornetto dos pequenos e fui comê-lo para perto de ti, dizendo:

- Humm, este gelado é mesmo bom!

- Gosto mais da parte da bolacha...

- Queres?

Sorriste e ficaste com o gelado que eu tinha levado para ti. Mas só depois de me teres quase obrigado a comer a parte de cima...

... acho que foi a tua maneira de dizeres que não estavas chateada. Porque depois não paraste de falar comigo, e antes de ires embora trepaste para o meu colo, abraçaste-me e abanando-nos cantaste "O barquinho". 3 vezes!

 

Confusões do sono

Ontem estavas quase a dormir depois de um serão de jogos. Mas ainda me pediste uma história. E outra...

- E  depois duas canções, está bem, Tia?

- Está bem, Sobrinha...

Como gosto de te habituar a músicas novas, e porque te supunha já adormecida, cantei-te apenas o refrão da "Balada do Outuno":

notas musicais2.jpgRios que vão dar ao marnotas musicais2.jpg

notas musicais2.jpgDeixem meus olhos secarnotas musicais2.jpg

notas musicais2.jpgÁguas das fontes calainotas musicais2.jpg

notas musicais2.jpgOh, ribeiras chorainotas musicais2.jpg

notas musicais2.jpgQue eu não volto a cantarnotas musicais2.jpg

 

E ouço-te sonolenta mas aflita:

- Tia, porque não voltas a cantar?

Reciclagem...

... foi o que disseste fazer com as aparas de lápis.

Acabaste a barra de cola antes de acabares o trabalho - e o problema era a falta de cola. Que ultrapassaste com bocadinhos de fita-cola dobrados. Que arrancaste quando a tia de entregou um tubo de cola, depois de quase teres arrancado os cabelos por o trabalho não estar a sair como querias... e que não querias desvendar enquanto não terminasses! Mas tiveste que pedir ajuda. Eu prometi olhar só o tempo necessário para te poder ajudar, nem mais um segundo. E cumpri, não cumpri? Pronto, cumpri quase, demorei um bocadinho mais a perguntar o que querias fazer com o projecto.

Enfim, reciclando aparas e afiando lápis que não precisavam de ser afiados, o resultado foi uma mesa de trabalho muito desarrumada, uma cara muito feliz e um projecto a precisar de fotografias:

- Agora quero colar aqui fotografias pequeninas, entre os corações... ajudas, Tia?

- Claro, Sobrinha! Vem cá, vamos escolher algumas para encolher...

(demorou mais do que a Tia pensava, 7 anos de fotografias são muitos anos!)

... e o resultado foi este.

 

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Uma série de desgraças

Andei 4 dias a tentar que visses "Uma série de desgraças". Nunca havia visto um episódio que fosse, mas conheço os livros e o filme, "Lemony Snicket: uma série de desgraças", e sabia que irias gostar.

Finalmente, na sexta-feira antes de almoço estava demasiado calor para brincares no jardim, e consegui que largasses o ipod. Coloquei o primeiro episódio, e aguardei a tua reacção.

- Não estou a a achar piada nenhuma, Tia, antes quero jogar mine craft!

Disseste quando ainda não tinham passado 30 segundos de filme. Respondi:

- Lembras-te do que que aconteceu com "O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa"?

- Lembro. Pronto, eu vejo mais um bocadinho...

E viste. Mais um bocadinho, um bocado e um bocadão! Nem querias sobremesa, tal a pressa em voltares para o sofá! 

O dia quente facilitou-te a vida, e ficaste a tarde no fresquinho da sala de televisão. Quando te disse que já chegava, disseste:

- Oh, Tia, isto é mesmo uma série de desgraças! Só lhes acontecem coisas más... e agora a mim também! Não posso ver mais um bocadinho, Tia, por favor?

Entre o chorar e o chorar a rir

Aos 4 anos, mudaste de casa.

O vendedor da casa nova chamava-se Sr. Leão, e quando a visitaste contaste logo à Tia como era "a casa do rei leão": gostavas muito dela - era pertinho da antiga, mas "muito grande", e ia ter móveis novos... e tu podias ajudar a decorar.

Quando as cadeiras da sala vieram, numa quarta-feira, parece que as achaste muito brancas. No dia seguinte, a tua Mãe descobriu duas com florinhas desenhadas nas costas.

- Filha! Nunca escreveste nos móveis, e agora estragaste as cadeiras novas?! Porque é que fizeste isto?!

- Porque eu queria que ficassem mais bonitas...

A tua Mãe explicou-te que não podia ser, limpou as cadeiras, e quando a Tia chegou, na sexta feira, ainda se notava uma manchinha cor-de-laranja numa delas.

Ouvi a história, sorri sem que notasses - não podíamos sorrir, tinhas que perceber que tinhas feito uma asneira!

Quando subi para pousar a mala no quarto onde iria dormir, descobri-te a pintar a parede da sala... e disse à tua Mãe:

- Irmã, tem calma, mas... a miúda está a desenhar na parede à entrada do meu quarto...

- Filha! Sinceramente! Então a Mãe não te disse que não se pode pintar nas paredes?!

- Não, Mãe, disseste que não podia pintar os móveis. E eu queria que a sala estivesse bonita para a Tia e os Avós...

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Pintura rupestre datada de 25 de Junho de 2016

A artista foi interrompida em plena inspiração.

 

Resolve nem que não jante

Estou ao computador, e tu, depois de teres feito alguns exercícios escolares, estás entretida num trabalho manual de colagem que envolve aparas de lápis. Que ias reciclar, disseste - e nem imagino o que será ou o que daí sairá.

Vais trabalhando em silêncio, enquanto verifico o correio electrónico. Mas de repente sorrio e abro este postal. Porque, distraída, começas a falar sozinha:

- Te-mos a-qui um pro-be-le-ma...

Cantarolas, e tão envolvida estás no trabalho que decido não te corrigir o pro-ble-ma.

E continuas:

- Ai te-mos, te-mos... mas eu vou re-sol-ve-lo... .. ... ho-ho, acho que isto não resulta... ah, mas vou resolver, ai vou sim! Nem que não jante hoje!

Tens tempo. Acabámos de almoçar há uma hora...

A colher não é tão boa como dizem

Depois do treino do garfo, e ainda antes da faca para empurrar, começaste a treinar a colher.

Comer o iogurte era fácil, a colher presa na ponta de três deditos revirava um bocado mas o iogurte lá entrava sem muito desperdício. Desde que não o mexêssemos, evitando assim que ficasse mais líquido. A gelatina, bom, a gelatina dançava na taça, dançava na colher mas, tirando a que caía, a que quase caía não era muita e não corria mal. O problema era a sopa! Escorria 3 ou 4 vezes da colher ao prato antes de te entrar na boca! Da colher ao prato, da colher à mesa, da colher às pernas... E tu, desesperada com fome e chateada com a colher que não se mantinha direita, nas primeiras vezes até tentaste comer picando a sopa com o garfo...

Mas a Tia lá arranjou solução, até porque o stock de panos de cozinha da Avó se estava a acabar: dei-te uma colher de sopa normal. Mal a conseguias dominar, mas pelo menos não cairia tudo! E começaste a comer sozinha todas as refeições - colherinha para o iogurte, garfinho, faquinha... e uma colher grande, maior do que a tua boca, para a sopa!

Enfim, entre a casa dos Avós, a casa dos Pais e a Creche, demorou um pouco mais mas em breve dominaste também a colher.

E passaste a usar, a todas as refeições em casa dos Avós, ora os talheres que tinham sido da Mãe ora os talheres que tinham sido da Tia.

Até entrares para a escola, no ano passado. Afinal, já eras uma menina crescida!

Aproximação aos talheres

Tinhas quase um ano.

Andavas na fase de deitar a mão ao prato durante as refeições, e a tua Mãe havia avisado que teríamos de te manter afastada do prato ou sairia asneira.

Estavas ao meu colo, eu a dar-te a refeição sólida depois da sopa, e tu insistias em tentar deitar a mão à comida.

Falando contigo, mesmo sabendo que não me percebias, disse-te:

- Bom, Sobrinha, se insistes em comer sozinha, o melhor será ensinar-te já a usar o garfo...

A Avó deu um salto na cadeira, o Avô olhou espantado, o Bisa parou de comer... e eu pus-te um garfinho de fruta na mão, orientando-te os gestos. Seguraste o garfo, picaste o bocadinho de carne, levaste à boca como se o fizesses desde sempre, continuaste, a minha mão a acompanhar a tua não fosses fazer algum gesto brusco ou desviares o garfo da boca.

A Avó ralhava:

- Olha que é cedo! Olha que ela aleija-se! Olha que ela não domina os gestos! Mais vale usares uma colher!

Respondi que uma colher era mais difícil pois não picava os alimentos. E continuei a colocar-te o garfinho na mão, sempre muito atenta aos teus gestos, a minha mão quase em cima da tua.

Continuei a fazê-lo a todas as refeições que podia.

Quando era a Avó a dar-te a comida, tu refilavas muito e tanto refilaste que a Avó desistiu e passou a colocar-te o garfinho na mão. Ainda tentou, mas sem qualquer sucesso, que usasses daqueles garfinhos de bebé que não passam de "colheres com risquinhas", como lhes chamaste uma vez, já maior.

Os teus pais regressaram, foste para casa, e por lá também mantiveste a autonomia.

O garfo de fruta ganhou estatuto ao lado do teu prato!

Uns tempos depois, estavas com 14 meses, vieste passar mais uma semana a casa dos Avós. E ao jantar a Avó disse:

-  Bem, a Neta não se aleija e já come os sólidos sem ajuda e sem deixar cair a comida. E é verdade que fica irritada quando não consegue apanhar os bocadinhos mais pequenos que se escapam ao garfo... Mas não achas que é demasiado cedo para a ensinares a usar faca?

 

Não era.

Usares a faca para cortar a comida é que demorou. Mas essa é outra história.