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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

Uma pausa anunciada

A Tia não tem publicado regularmente. E agora estará muitos dias, longos dias, longos, sem publicar. Sem navegar a blogosfera.

Mas voltará aos blogues. A este blogue. Porque é um blogue da Tia, mas é o Blogue da Sobrinha. 

Fica este abracinho até ao nosso reencontro.

Contas de somar, está bem

Poucos dias antes do Natal:

- Tia, a Priminha L. gosta muito de estar ao teu colo, pois gosta?

- Parece que sim, Sobrinha.

- E tu também gostas muito de a ter ao colo, pois gostas, Tia?

- Gosto, ainda é a única maneira que a L. tem de comunicar connosco...

- Ela é muito queridinha.

- É, sim. Tu também eras assim, quando bebé..

- Gostas muito dela, Tia?

- Gosto. E gosto muito de ti.

- E não vais gostar um bocadinho menos de mim para poderes gostar dela, Tia?

- Oh, Sobrinha! A Tia nunca vai deixar de gostar de ti nem um bocadinho, por muitas priminhas que tenhas! Quando gostamos das pessoas, não as trocamos por outras, querida - juntamos. Imagina que os nossos braços são elásticos: esticam quando abraçamos mais alguém. Foi assim quando nasceste...

- Não deixaram de gostar da minha mana, não foi, Tia?

- Exactamente! Não deixámos de gostar da tua Mana, tal como não deixámos de gostar da tua Madrinha quando o D. surgiu, ou os Avós deixaram de gostar de mim quando a tua Mãe surgiu...

- Ah! Então podemos gostar sempre de mais pessoas... ainda bem, Tia, eu não queria gostar menos de ninguém. Nem queria que gostasses menos de mim.

O Instante do Insta

Histórias dos dias de estar em casa - da Avó

A Tia ficou aflita quando lhe disseste estares a publicar vídeos no Insta!

No Instagram? Terias aprendido a criar uma conta sozinha?

 

Gostas muito de ver vídeos de instruções, daqueles que ensinam a fazer desde origami a bolos, que orientam a criação de plasticina ou o arranjo das torneiras - sem falar nos que desvendam truques para o Mine Craft! Gostas dos vídeos, vês com muita atenção, entendes que consegues fazer... e fazes! Quantas vezes sem nada nos dizeres, em silêncio preparando a surpresa com que nos brindas, sorrindo depois do nosso espanto e do nosso orgulho na tua conquista. Bom, quero dizer, a maior parte das vezes, pois de quando vez... mas são outras histórias, ficam para outro dia.

 

Não, não me admiraria que tivesses encontrado um vídeo sobre como criar uma conta no Instagram e te tivesses decidido a tal.

Já te explicámos, toda a família explicou e continua a explicar, que a Internet é muito boa, mas também pode ser muito má. E tu ouves com atenção, mas felizmente ainda não percebes a dimensão da maldade. Como poderias perceber que as meninas alegres que vês a dançar e a cantar recebem mensagens que as fazem chorar - apenas porque há quem goste de as fazer chorar? Como poderias perceber que as fotografias que publicam e as frases que escrevem podem ser usadas para descobrir onde vivem ou onde estão - e que há pessoas más que as querem roubar, magoar e, até, raptar? Tens tempo de perceber, Sobrinha, e por nós esse tempo nunca estaria perto. Mas não podemos deixar de te alertar. E, até viveres o suficiente para perceberes, somos nós que teremos de cuidar dos teus passos, mesmo que tu nem sempre gostes quando te pergunto "Sobrinha, posso sentar-me e ver esse vídeo contigo?"

Enfim, a Tia ficou muito preocupada. Mas depois lembrou-se que talvez, talvez, a conta não tivesse sido criada por ti. E não tinha sido. O teu Pai explicou que a conta estava privada e que as tuas publicações só podiam ser vistas pelos teus amigos. A Tia, suspirando de alívio, percebeu muito bem percebido que o teu Pai falava dos amigos a sério, daqueles que convidamos para as festas de aniversário. E percebeu também que os pais deles ainda lhes estavam a criar as contas.

 

E tu, Sobrinha, percebes agora porque tinhas poucas cortiças?

O problema das cortiças

Histórias dos dias de ter de estar em casa - da Avó

Ontem à noite, verificavas as mensagens no teu telemóvel quando a tristeza te saiu na voz:

- Tia, não é justo! Eu estou desde manhã e só a Mãe e a Mana é que viram, mas a Mãe foi há bocadinho e já tem tantas cortiças!

- Desculpa, Sobrinha! A Mãe tem o quê?

Perguntei eu, espantada; talvez a tua Mãe tivesse criado um modelo com materiais diferentes, uma nova tendência da Moda?

Mas não:

- Oh, Tia, no Instagram, Tia! Eu publiquei um vídeo com uma coreografia de manhã e só tenho duas, e a Mãe publicou uma foto dela há bocadinho e já tem quase xyz*, não é justo a Mãe ter tantas cortiças!

- Ah, estás a falar de curtidas!

- Sim, Tia, isso. É o mesmo que gostos. Achas justo?!

 

 

Ri-me muito da tua expressão. Não de ti, nunca de ti. E desviei a conversa, não te respondi.

Mas acho justo, Sobrinha. Acho. E tu também acharás, um dia. Por agora, continuarás desgostosa com as poucas cortiças. E com a sua explicação, que deixo para outro postal.

 

* Tu disseste o número, a Tia ocultou-o.

A doceira da família

Hoje é dia da Mãe, Sobrinha.

Pela primeira vez não reuniremos as mães da família... mas apenas adiaremos a festa, não é? Vamos festejar tanto quando nos pudermos abraçar! Serão dias e dias de risos e beijos e doces...

Sim, porque tu já andas a treinar para doceira! E estou ansiosa para saber que bolo farás hoje para a tua Mãe. Será igual ao que fizeste há uns dias?

Para não me esquecer, partilho exactamente como me disseste:

- Tia, olha! Fui eu que fiz tudo sozinha!  A mãe estava lá em cima e não me ajudou nadinha! Pois não, Mãe?

feito pela sobrinha

 

- Que bom aspecto, Sobrinha! Estão muito bonitos! E tiveste cuidado? É tudo eléctrico, mas tens que...

- Sim ,Tia, eu sei que tenho de ter as mãos bem secas para mexer na batedeira e que não posso tocar no forno quando está quente, não te preocupes!

- Está bem, não me preocupo (!) Mas estão mesmo muito bonitos, para primeira fornada da pasteleira... Então e que receita usaste?

E tu explicaste que a tinhas inventado:

- Não vi a ninguém, Tia, é uma receita minha. Usei 100 mililitros de farinha,  1 iogurte, um bocadinho de natas do pacote, mas das frescas, Tia!, dois copinhos de açúcar...

- Dois?

- Daqueles de medir, sabes, Tia? Mas só pus um bocadinho em baixo, tipo dois dedos. Não vi quantos mililitros eram, por isso é que usei dois. E ainda um ovo e um bocadinho de sumo de limão. Queria mais, mas o limão era duro e só consegui tirar um bocadinho. Depois bati tudo bem batido e coloquei no forno a 180.

- 180?

- Graus.

- Humm, certo. E não usaste manteiga?

- Oh, Tia, claro que usei! Tinha de barrar a forma, não achas?!

- Certo, certo, só perguntei, Sobrinha. Para primeira tentativa, sairam muito dourados. E estão saborosos?

- Ficaram um bocadinho doces... para a próxima corto no açúcar! E, Tia, ainda fiz chantilly, para colocar por cima...

- Fizeste? Então como?

- Coloquei as natas e um iogurte na batedeira, juntei um bocadinho de açúcar e umas gotas de limão... mas não mando fotografia agora, Tia, porque está a arrefecer no frigorifíco. Mando depois, está bem?

E mandaste. 

feito pela sobrinha

 

Mais um pouco de fermento e fica no ponto. A doceira e os bolos 

A Sobrinha-correio

histórias dos dias de ter de estar em casa

Acredito que ainda te lembres desta... foi ontem ao jantar.

O teu pai grelhou peixe e, sabendo que tanto os avós como a tia gostam muito de robalo grelhado, enviou uma fotografia com a mensagem:

- Vai um robalinho?

Respondi, brincando:

- Manda cá a Sobrinha com uns quantos. Devolvo-ta daqui a uns dias com um frango assado.

Passado uns minutos, ouvi a tua mensagem de voz:

- Oh, Tia, eu não sou correio!

Muita fruta para a camioneta da Tia

Não sei se terias já 4 anos.

Havias andado a colher morangos e pêssegos e, sentada no banco sob as laranjeiras, fazias um piquenique de fruta. Estavas muito satisfeita, a retirar cada peça da cesta e a lavar cuidadosamente na taça de água que me tinhas pedido.

Vendo-te de cara feliz, mas lambuzada, ainda me calei. Mas, finalmente, disse-te:

- Sobrinha, vai lavar a cara, daqui a pouco estás cheia de borbulhas...

- O pêssego faz borbulhas, pois faz, Tia?

E, ajeitando-te no banco de pedra, deliciada continuaste a roer o pêssego.

- Sobrinha, vem, vamos lavar a cara, já não te posso ver assim!

E tu, com a inocência da idade:

- Está bem, Tia. Mas podes fechar os olhos para eu acabar de comer este pêssego?

Como a Tia se engana...

Quando estás comigo, apanho-te o cabelo num rabo-de-cavalo. Poucas vezes te dei a escolher, dizendo-te sempre que "meninas traquinas usam cabelo curto ou apanhado para brincarem descansadas". Nunca recusaste, e é quase um hábito mal chegas a casa da Avó ou à minha.

Antes do Carnaval, fui passar uns dias contigo. Em casa não costumas apanhar o cabelo, e fiquei muito espantada quando, no domingo à noite, me perguntaste se no dia seguinte te poderia pentear.

Disse que sim, claro, tinhas ginástica e pensei ser esse um mimo, uma forma de estares comigo um bocadinho antes de ires para a escola.

Às 7 horas e 40 minutos estavas à porta do meu quarto com a escova e um elástico.

 

Nesse dia fiquei acordada até muito, muito tarde... e 2 horas depois acordaste-me para te apanhar o cabelo.

- Claro, Querida! Mas não sabia que hoje também tinhas ginástica.

- Não tenho, Tia.

- Ah, pensei... 

 

Resolveste que todos os dias te apanharia o cabelo, e assim foi. E eu sem perceber o porquê da mudança, até me explicares que eu te fazia um "rabo-de-cavalo que se via no alto da cabeça".

Na quarta-feira à noite despedi-me de ti pois, embora te fosse levar à escola, não teríamos tempo para grandes despedidas no dia seguinte. Ficaste muito triste.

- Oh, Tia, não podes ficar até sábado?

-Não, Sobrinha, tenho reuniões marcadas.

- Oh Tia, e não podes ir embora só na sexta de manhã?

- Não, Sobrinha, não posso.

- Oh, Tia, mas sexta-feira é o Carnaval e eu vou vestir-me de Super-Mulher...

Estavas triste, a Tia tantos dias contigo e ia embora na véspera do dia mais importante da semana. Sem sequer te ver mascarada...

- Oh, Sobrinha, também tenho pena de não te ver! Mas o Pai e a Mãe tiram fotografias e mandam-me, está bem?

- Pois, está bem, Tia... mas quem é que me vai fazer o rabo-de-cavalo?! E logo na sexta-feira, em que queria estar mais bonita!

Um conto para um desenho

Histórias dos dias de ter de estar em casa

Telefonaste-me. Precisavas que te falasse de um conto tradicional para depois fazeres um desenho.

Aproveitei o pedido e contei-te a história de Pedro, o menino que gritava "lobo", já a pensar noutras actividades que te iria propor.

- Tia, já me contaste essa história, tenho uma vaga ideia... mas sou sincera,  não me lembro de nada!

Sorri ao ouvir-te a vaga ideia, e respondi ser uma óptima altura para a voltar a contar.

A história saiu mais simples do que o normal, pois querias um tema para um desenho e não uma história para te entreter. Percebeste os vários momentos da acção, fizeste perguntas, riste-te, e até decidiste fazer não apenas um mas quatro desenhos, uma verdadeira banda desenhada.

Quando passámos à escrita da história, que te iria ajudar na construção dos desenhos, a conversa já não correu tão bem:

- Tia, não foi assim que disseste há bocado!

- Tia, mas há bocado foi o chapéu que caiu quando eles fugiram, não foi o casaco...

- Tia, mas afinal ele gritava lobo por ser traquinas ou por ser mentiroso?

Expliquei-te que ao contar uma história as palavras variam, pois não as estamos a ler, e que até as situações podem ser contadas de forma diferente, como quando tu pegas nas histórias que invento e acrescentas pormenores ou mudas um bocadito das conversas.

Chegámos a acordo, e lá continuei a história, tentando usar as mesmas palavras e algo perdida por ocasionais interrupções "É ponto final, Tia, ou é vírgula?", "É com dois esses, pois é, Tia?". Foste escrevendo, mas quando chegámos à floresta onde o Pedro foi mordido,  tudo se complicou! A tia já não se lembrava exactamente de como tinha contado, sentia que faltavam alguns pormenores para que a história saísse bem escrita, tu já estavas cansada e já te atrapalhavas quando te pedia para leres "a partir de"...

- Sobrinha, tira uma fotografia ao que escreveste e envia-me, para ver o que falta.

- Está bem, Tia, envio já.

- E se fôssemos lanchar antes de continuarmos?

- Sim, Tia, o Pedro pode ser mordido mais logo.