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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

Brincadeira assim-assim

Ou quando os adultos e as crianças têm noções distintas de "nada para dizer"

Um destes dias, ao telefone:

- Sobrinha, conta-me como tem sido a vida na escola e fora da escola!

- Oh, Tia, não tenho novidades...

- Mas... não aprendeste nada novo, não fizeste nenhum disparate, não inventaste uma historinha, sequer?

- Nada, Tia...

E começaste a fazer caretas para a câmara, e quanto mais eu tentava falar contigo mais patetices fazias.

Tendo mais o que fazer, pedi-te para conversares um bocadinho ou teria de desligar...

e, despedindo-me, desliguei, porque tu calada e a câmara apontando para as paredes, para a rua, para todo o lado menos para uma Sobrinha em conversa com a Tia.

Um minuto depois recebi a mensagem:

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Enfim, já tenho trabalho para os próximos tempos: rever a diferença entre "brincar" e "fazer perder tempo e paciência". Contigo.

 

Tenho tantas saudades tuas, Sobrinha!

 

O sinal

No Verão fizeste um desenho. E recortaste-o. Disseste que estavas "a fazer uma coisa para quando nos vestimos".

Demoraste mais do que esperavas. E no final disseste ser para pendurar na porta do guarda-vestidos, para se saber que era um guarda-vestidos.

- Muito bonito, Sobrinha! Mas olha que nem a Tia nem a tua Mãe nem tu alguma vez duvidámos se o guarda-vestidos era ou não era um guarda-vestidos, por poucos vestido que lá tenham sido guardados ao longo de tantos anos...

- Oh, Tia, era uma boneca para as senhoras nas lojas da Mãe saberem onde se devem vestir. E quando entrassem penduravam isto e as outras senhoras sabiam que estava lá gente e já não entravam...

- Boa ideia, Sobrinha! Por isso é que tinha esta fitinha...

- Sim, Tia, era para se pendurar por aí. Mas só fiz uma e não me apetece fazer mais... Pode ficar aqui no guarda-vestidos, pois pode, Tia?

- Ah, está bem, fica a enfeitar. Mas a ideia era muito gira e útil.

- Então, Tia, fazemos assim:  quando te estiveres a vestir penduras na porta do quarto e eu não entro nem bato à porta porque já sei que te estás a vestir, está bem?

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A "boneca"

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O sinal

As decorações de Natal da Avó

A Avó gosta das decorações de Natal. Tu também gostas, e ficavas sempre muito feliz quando chegavas e vias as luzes e o presépio e as grinaldas e as velas... 

Há dois anos, cheguei a casa da Avó na última quinta-feira de Novembro, e as salas e a cozinha estavam já decoradas. 

Perguntei à Avó:

-  Não é cedo para decorares a casa?

- A minha Neta vem passar o fim-de-semana, e eu quero que ela veja a casa assim bonita! 

No dia seguinte, cheguei para jantar antes de tu e os teus pais chegarem, e a Avó andava atarefadíssima a mexer nas decorações de Natal. A retirar tudo o que havia colocado no dia anterior!

Perguntei-lhe:

- Então o que se passa para andares a retirar a decoração?

- A tua Irmã ligou-me antes de saírem, a tua Sobrinha queria falar comigo.

- A sério? Mas se já vinham a caminho... o que queria a miúda?

E a Avó imitou-te:

- "Sabes, Avó? Estive a pôr as coisas de Natal na minha casa, com a Mãe e com a Mana. Ficou muito bonita, tirei fotografias para veres. E, olha, podias ir buscar as tuas coisas à garagem? Porque amanhã de manhã está frio e eu queria arrumar a casa para o Natal contigo e com a Tia... podes, Avó?"

Desde então que a Avó deixa metade da casa por decorar até à tua chegada.

A Tia percebeu o que era bom para a tosse

Os doces nunca fizeram parte do teu quotidiano.

Terias uns 4 anos, a Tia descobriu umas gomas muito boas de eucalipto e outras de limão, que ajudavam a aliviar a tosse. Por isso, havia sempre uma bomboneira em casa da Tia e outra em casa dos Avós cheiinha de gomas de eucalipto e de limão! E dissemos-te que não eram guloseimas, que eram gomas para chupar quando se tinha muita tosse.

Mas cedo percebi que, mesmo assim, não poderia continuar a ter gomas nas bomboneiras...

- Sobrinha, já comeste três gomas hoje, não podes comer mais!

- Cof, Cof, Cof, Tia, estou com tanta tosse...

- Estás, querida? Então anda cá, a Tia dá-te uma colher de xarope.

- Não, Tia, a tosse já passa quando acabar esta goma, queres ver?

 

A Fada dos Dentes também tem culpas

Ontem, em videochamada, mostraste-me o vazio de outro dente caído.

- Tia, e sabes? A Fada deu-me 5 euros... mas esqueceu-se do dente na cómoda do meu quarto!

- A sério? Ai que Fada distraída! Então, se usares o dente outra vez como é que ela vai saber que já te deu dinheiro por ele?

- Oh, Tia, mas eu não vou usar! Não pode ser, é batota!

- É, sim, Sobrinha. Mas imagina se ela faz isso com outros meninos, e que alguns desses meninos resolvem fazer batota...

- É injusto. Mas a culpa também é da Fada, não se pode esquecer assim dos dentes, Tia!

Porque não têm surgido postais

A Tia precisa de tempo para tirar as tuas histórias do baú onde saltitam. Sim, as memórias que tenho contigo pulam, riem, rodopiam nos pensamentos onde as guardo. E quando as quero escrever tenho de as segurar com cuidado para que não fujam, irrequietas como tu num jogo da apanhada... não param no mesmo sítio, agora uma, ainda a meio e já outra... tantas no mesmo instante!

Preciso também de tempo para recordar o que já contei - não queremos tropeçar duas vezes na mesma história, pois não?

Está quase... e entretanto lê, Sobrinha. Ler é correr mundo sem sair do lugar. E tu já sabes ler, já me podes ler ao telefone as histórias que escreveres ou que descobrires nos livros e desenhos que te aguardam.

 

Agora ainda não, mas mais velha também gostarás deste quase poema onde a Gaffe, aquela amiga que pintou as paredes deste teu quarto de brincar, fala das sobrinhas que aprendem a ler... Ela também é tia, e por isso sabe o que diz. Um dia verás!

Saudades de gente pequena

Ou a canção certa na voz errada

Há um ano, talvez dois, a tua Mãe ligou-me seria quase meia-noite.

Havias estado quase duas semanas com a Tia e com os Avós, e estarias em casa há três ou quatro dias quando, ao adormecer, tiveste uma crise de choro.

Ao princípio a tua Mãe não percebeu o que se passava, depois lá disseste que querias ouvir uma música. A tua Mãe cantou várias, mas nenhuma era aquela... e finalmente falaste na Canção de Embalar. Como não sabia a letra toda, ligou o You Tube e esteve uns largos minutos a repetir Zeca Afonso e outros cantores que encontrou. Acalmaste um pouco, mas as lágrimas ainda caíam... e não conseguias adormecer.

Em desespero, a tua Mãe telefonou em videochamada:

- Mana, a miúda está a chorar há mais de uma hora, não consigo adormecê-la, pediu para falar contigo...

- Então, Sobrinha, o que se passa?

E tu, chorosa e com ar de sono:

- Tia, cantas?

Não precisei de perguntar que canção querias. Comecei "Dorme, meu menino, a Estrela d'Alva", e ainda não ia a meio quando a tua Mãe me disse baixinho:

- Mana, vou desligar. Ela adormeceu...

A história a duas mãos, finalmente!

O caderno desaparecido há três postais apareceu...

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... estava afinal na biblioteca da Avó, arrumado entre os teus livros, alguns dos novos e muitos dos velhinhos que tinham sido da Tia.

Agora já posso mostrar a história que escreveste... ei-la!

 

A Princesa Piolho

Era uma vez uma princesa tão pequenina que lhe chamavam de Princesa Piolho.

Quando a Tia chegou de Leiria foi escovar o cabelo da ***********. Começou a falar a Princesa Piolho:

- Não te preocupes, eu sou a Princesa Piolho.

- Então vou ter que te tirar do cabelo da minha sobrinha.

- Não, não, eu não faço mal.

- Mas tu és a Princesa Piolho. Ok, está bem, mas fazemos um acordo, vai falar com as formigas.

- Olá, formigas, podem-me ajudar?

- Ok, toma uma caixa de fósforos, pode ser a tua casa.

- Ok.

- Toma um bocadinho de vidro para lavar as mãos e um bocado de borracha para ser a tua cama.

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Esta foi a tua primeira história escrita. Não disseste como acabava, mas a Avó estava a chamar e depois esqueceste-te... Podemos continuá-la um destes dias, que dizes?

E a Tia, que apenas corrigiu os erros que, distraída, salpicaste na folha, ajudar-te-á a construir a história sem tocar nas personagens nem na acção: a tua imaginação deve voar nas palavras escritas como te voa na voz quando acrescentas pormenores às histórias que te conto.

 

Aconteceu quando a Tia tinha a tua idade

Sobrinha, a Tia ainda não encontrou o teu caderno... tens a certeza de que não o levaste?

 

Enquanto a tua história aguarda, deixo-te uma, daquelas verdadeiras!, que me aconteceu há muitos anos, seria eu da idade que tens hoje, ou talvez mais nova... a Tia escreveu-a porque participa num desafio e já a publicou no outro blogue, mas como ainda és muito pequenita para perceber o que digo por lá, copio-a para aqui. Espero que gostes. E que não te esqueças que a Mãe é a minha, não a tua... 

 

Um momento marcante

Lembro-me de ouvir na azáfama, não sei se na voz da Tia ou da Avó, que seria talvez um leopardo. Um leopardo? Só me recordava de um tigre, e não conseguia imaginar como entrelaçar no momento as barbas e os cabelos do Sandokan. Pensava nisso e esperava, as mãos no ar como se empunhando o sabre. A Mãe explicou-me então que não seria tigre e muito menos o da Malásia, mas sim um gato grande de pelagem pintalgada, ágil e trepador, e pára de dançar sobre a mesa, ainda cais!

Reparei que a lua subia e mercúrio descia, asas leves de algodão esvoaçando como se trazendo novas do tal leopardo que se aproximava. Se sabedes novas do meu amigo, cantava Adriano, a voz cristalina morrendo sob as minhas perguntas, Mãe, falta muito?, pequenas borboletas vermelhas alvoroçadas à minha volta e eu alvoroçada na espera do gato pintalgado.

Quando o Pai chegou, a guerra esquecida atrás dos olhos verdes que me olhavam preocupados, perguntou, Confirma-se? E com borboletas vermelhas voando-lhe das mãos, a Mãe respondeu, Sim, a miúda está com varicela.