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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

Banda Desenhada, pela Sobrinha

Numa tarde das férias da Páscoa dos teus muito recentes 7 anos, descansava na cama e tu muito entretida a desenhar numa das mesas do quarto. Podias passar horas com um papel e um lápis!, e assim não era difícil ter-te por perto, mesmo estando doente.

A espaços falava contigo, mas estavas mergulhada no papel e mal me respondias.

Quando deixámos de ouvir a chuva, espreitaste a Mata que te chamava da janela do quarto e disse-te que fosses passear, que o baloiço também tinha saudades tuas. Sorriste, e disseste que não demoravas.

Quando te levantaste, um dos papelitos esvoaçou para perto da cama e vi que o teu desenho era, afinal, um conjunto de desenhos metidos na metade da metade de uma folha.

Este:

BD Sobrinha.jpeg

 

Pedi-te para explicares o desenho, e tu explicaste muito bem explicadinho:

- Então, tia, aqui no quadradinho 1 é uma lagarta a trepar à árvore, está a vê-la pendurada, tia?

No quadradinho 2, já fez o casulo, vês, tia, olha aqui, parece um ovo...

No quadradinho 3  já passou muito tempo e a lagarta transformou-se numa bonita borboleta, cheia de pós brilhantes, e anda a voar de flor em flor, vês, tia, olha os pozinhos a brilhar ao sol...

- E o que se passa no quadradinho 4, sobrinha?

- É o Pepe [cão], que vê a borboleta a passar e como gosta dos pozinhos brilhantes começa a saltar porque quer ser amigo dela.

Um rei demorado

No Verão após o teu primeiro aniversário, comecei a cantar-te José Barata Moura e Ana Faria. E Os Caricas, claro, ao som dos quais começaste a dar ao pé muito antes de dares um passo.

Numa qualquer tarde de Agosto ou Setembro, e não me lembrando de toda a letra da Era uma vez um rei, peguei no telemóvel e procurei no You Tube.

As grossas paredes da casa dos avós dificultam a rede sem fios, e na altura não havia aquelas "coisa com a luzinha azul" que são os reprodutores de sinal.

Estávamos no quarto, e no ecrã do telemóvel apenas aparecia o triângulo vermelho do You Tube com o círculo que indicava estar este a carregar... e tu não te lembras, mas esse telemóvel não tinha um ano e estava já no limite da capacidade.

Assim, o You Tube estava a demorar mesmo muito muito muito tempo a carregar, o círculo a dar sinal da lentidão e eu cansada de aldrabar a letra de uma das minhas canções preferidas - que viria a ser, também, uma das tuas canções preferidas.

Eras paciente, mas talvez tenhas sentido a minha impaciência, porque

- Tia, não há mússica?

- Oh, Sobrinha, vês esta bolinha a girar? A canção vem a caminho, está a chegar.

E ia trauteando a Joana que comia a papa, o Luís que foi a Paris, e tu

- Tia, o rei?

e eu aldrabava o rei e a sua barriga e nem a música respeitava, esquecida de quase tudo menos do refrão.

Até que tu, talvez cansada de esperar por um rei prometido que nunca mais chegava, olhaste fixamente o telemóvel e  autoritária disseste

- Oh, bo'inha chata! 'pacha-te, a tia que' o rei!

Uma estrela para a tia

Quando começaste a pedir a Frozen em português, e depois de longos meses a adormecer-te em inglês, aproveitei para recomeçar a cantar-te músicas portuguesas, como fazia antes de conheceres a Elsa e a Ana.

Mais rapidamente do que esperava, foste preferindo estas músicas. Cantadas apenas à noite, duas ou três quando mais desperta, fui alternando a Canção de Embalar com a Chamarrita, a Atados e Simples com a Marião, a Vejam Bem com a Laurinda... e muitas, muitas outras canções em compasso de balada. Mas a tua preferida era, ainda é à data em que escrevo, a Canção de Embalar

 

Numa noite perto do meu aniversário, tu já com seis anos [não cinco, foi este ano!], pediste-me para a cantar duas vezes, uma depois da outra. Como já tínhamos vivido outras histórias com esta música, não estranhei a tua preferência. Tal como não estranhei quando, na noite seguinte, pediste nova repetição.

De manhã, ao preparar o pequeno-almoço, estavas mais calada do que o normal... enquanto enfeitava o prato da fruta, senti-te encostares-te a mim, abraçares-me e:

- Dorme, meu menino, a Estrela d'Alva...

Quase tão baixinho como eu te cantava, cantaste-me toda a canção sem falhares uma nota, sem esqueceres uma palavra!

Foi uma surpresa tão linda, sobrinha!

Olá-lá den-te

Tinhas 3 anos e, chegada à sala dos avós, dei contigo a dançares cheia de swing em volta da tua mesinha de trabalho, as mãos a agitarem-se em jazz enquanto cantavas:

- Olá-lá den-te, olá-lá den-te, a vida que um gato tem. Olá-lá den-te, olá-lá den-te, a vida que um gato tem...

- O que estás a cantar, sobrinha? Que canção é essa?

- É a canção dos aristogatas, sabes, tia? Aquela do gato com chapéu no telhado? Olá-lá den-te, olá-lá den-te...

- Sobrinha, não é Olá-lá dente, querida! É Toda a gente, Toda a gente, quer a vida que um gato tem.

- Não, não, tia, é Olá-lá den-te, olá-lá den-te, a vida que um gato tem.

- Oh, sobrinha, não é . Ouve como canto: To-d'á gen-te, to-d'á gen-...

- Não, não, tia!  Oh, tia, tu não percebes nada! Tu nem sabias qual era a canção...

A tia esteticista

Ainda não tinhas vinte e quatro horas quando te limei as unhas pela primeira vez.

E continuei a limar, e mais crescida até cortava algumas peles - porque a menina sempre gostou de puxar fios e, na falta deles, puxava bocadinhos de pele que estivessem levantados...

Limava-te as unhas, cortava as peles levantadas e massajava unhas e dedos com óleo de amêndoas doces. Que aplicava à volta da unha usando uma caneta com pincel.

Não me lembro que idade terias, 3 ou 4 anos, mas numa dessas noites de Inverno a tua mãe telefonou-me e disse:

- Mana, fala com a tua sobrinha, porque a miúda diz que "precisa muito de falar" contigo...

- Olá, Sobrinha! Precisas muito de falar com a tia?

- Oh, tia! Vens a minha casa?

- Vou, mas não agora, só na outra semana.

- Oh, tia, mas não podes vir hoje?

- Não, mas... Tens assim tantas saudades da tia?

- Oh, tia, tenho mas não é isso! É que tenho uma pele a doer e tens que a vir cortar...

- Oh, filha, então ligaste à tia para pedir isso? A mãe corta!

- Mas tu não pintas as unhas  como a tia!

Tia, precisas de um telemóvel novo

No teu primeiro Natal levaste-me a comprar um telemóvel novo. Aquele ainda estava bom, mas...

Estava a tirar-te fotografias, a cansar as saudades depois de 3 semanas. E tu esticavas o pescoço, esticavas as mãozitas, esticavas-te toda a tentar apanhar o telemóvel - até que conseguiste.

Supus que o fosses levar à boca, os dentes andavam a fazer cócegas e tu roías as chuchas todas...

... mas, afinal, querias ver as fotografias.

E ficaste muito impaciente porque, por mais que deslizasses o dedito, o ecrã do Nokia C5 não se mexia!

 

 

Lady Marion

Quase 3 anos, sentadas a ver o Robin dos Bosques pela 3456.a vez, enquanto falávamos do traje para o Carnaval. Apesar de andares sempre mascarada em casa...

- Tia, posso ser a Lady Marion?

- A Lady Marion? Mas a roupa da Lady Marion não é muito bonita...

- Oh, Tia, mas eu gosto muito da Lady Marion!

- Está bem, se queres ser a Lady Marion digo à tua mãe para ver se encontra ou peço à costureira... mas queres mesmo ser a Lady Marion?

- Sim, Tia, quero mesmo ser a Lady Marion! Eu gosto muito dela!

- Ai, gostas, sobrinha? Então porquê?

E com um ar malandro, respondes:

- Porque ela sabe atirar flechas,  e luta e atira bolos à cara dos maus!

 

As meninas são todas princesas

Terias cerca de 3 anos.

Sentadas num sofá da sala, explicavas-me a conclusão a que tinham chegado na creche:

- Tia, todas as meninas têm cabelo comprido.

- Na tua sala todas as meninas têm cabelo comprido?

- Não tia, as meninas todas, todas, todas. E somos princesas. Eu sou a Cinderela!

- Ah, na tua sala cada menina é uma princesa...

- Não, tia! As meninas têm cabelo comprido. E são princesas e eu sou a Cinderela.

- Ah, pronto, acho que percebi. Mas, espera... a tia não é menina?

- És.

- E olha bem o meu cabelo... é curto.

- Pois... mas não é curto como o dos meninos, tia!

- Mas já o usei curto como o dos meninos... e sou menina.

E tu, atrapalhada, pensaste melhor e disseste:

- Mas isso não conta, porque agora não é curto como o dos meninos!

- Pois não. Certo! Então, sou menina mas não posso ser princesa, é isso?

- Porque não podes, tia?

- As princesas não têm todas o cabelo comprido?

- Têm....

- Já vimos que o meu não é curtinho. Mas também não é comprido, por isso não posso ser princesa...

Fizeste uma cara tristonha. Olhaste melhor para mim, quase saltaste para o chão e correste ao quarto.

Quando voltaste, trepaste ao sofá e, tirando a mãozita das costas, colocaste-me na cabeça uma bandolete vermelha com lacinho.

Sorridente, disseste majestosa:

- Pronto, tia, agora és mesmo, mesmo, mesmo como a Branca de Neve!

Ser ou não ser Rosa

Andavas naquela fase terrível dos 2 anos, em que a cor mais linda do mundo era o cor-de-rosa.

E começaste a aprender os nomes completos dos membros da família...

- A mãe é Rosa, a tia é Rosa, a avó é Rosa, o avó é Roso...

- Não, filha, o avó é Rosa.

- Não, não, mãe, as meninas são Rosa, o avô não é menina por isso é Roso!

E a tua mãe aflita, sem saber como explicar...

- Oh, sobrinha, pois, tens razão, mas foi o nome que deram ao avô...

E tu:

- Mas é Roso. E são todas Rosa menos eu, e eu quero ser Rosa e o pai Roso!

- Ai, filha, o que eu fui fazer! Desculpa, os pais não sabiam que tu querias ser Rosa...

- Oh, mãe... Rosa! Rosa, mãe! Eu quero ser Rosa, são todos menos eu!

- Pronto, neta, a partir de agora passas a ser a minha Rosinha...

- Posso, avó? Posso ser Rosinha?

- Podes, neta, a partir de agora chamo-te Rosinha!

- Pai, pai! Eu já sou Rosinha, pois sou, avó?

Ir de avião à Disney

Ias fazer quatro anos quando recebeste uma prenda que te deixou a cantar: ias de avião à Eurodisney!

Ficaste tão feliz!

- Tia, vou de avião à Disney?

- Vais, sim, sobrinha.

- E tu não podes vir, tia?

- Não, tenho de trabalhar.

- Mas não podes vir de avião à Disney, ver a Cinderela e o Robin dos Bosques?

- Não, sobrinha, mas vou contigo noutra altura, está bem?

- Está bem, tia! E eu tiro fotografias e tu vês como é, pois é, tia?

E eu que sim, enquanto folheávamos todos os livros e gastávamos os DVD.

No dia da viagem, lá foram, e eu a espreitar o relógio, fazendo contas para telefonar.

Quando estava quase, quase a pegar no telefone, a tua mãe ligou, a dizer que tinham chegado bem. Mas que as avós quase ficavam doentes de tanto rir por tua causa.

Porque adoraste andar de avião, mas quando aterraste no aeroporto começaste a reclamar muito desgostosa:

- Disseram que eu ia de avião à Disney e isto não é a Disney...

- Oh, filha, estamos lá quase, agora só temos que andar um bocadinho de metro...

- Mas disseram que eu ia de avião à Disney e eu já saí do avião e isto não é a Disney...

- Oh, neta, mas o avião só pode ir até ao aeroporto...

- Mas mentiram, disseram que eu ia de avião à Disney e isto não é a Disney...

 

Dizem que só te calaste quando, finalmente, chegaste à Disney. Não de avião, como querias, não de metro, como eu pensava, mas de carro - disse-me hoje a avó, quando lhe apresentei o blogue. (2 de Junho)

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