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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

Na igreja do castelo de Leiria

Na primeira estada em minha casa, fomos passear por Leiria. A Tia tinha tudo muito bem programado, e queria começar... pelo castelo

Estavas muito entusiasmada! Já te tinha explicado algumas coisas, e por isso não fazias muitas perguntas enquanto subíamos o caminho íngreme em frente à Casa da Guarda. Olhavas o jardim e a muralha, por sobre a qual mal vias uma nesga da cidade.

Quando entraste na nave da Igreja de Santa Maria da Pena, olhaste em volta, passeaste com a Avó pela capela-mor,  e depois foste espreitar todos os recantos das paredes góticas, olhando sempre as paredes e as janelas bonitas. Deixei-te andar por lá mas, como o sol já nos queimava naquela igreja sem tecto, chamei-te para irmos até à sombra do Paço. 

- Tia, isto era uma igreja, pois era?

- Era, sim, Sobrinha. Há muitos e muitos anos.

- E os padres rezavam a missa aqui?

- Rezavam.

- Humm... Mas, tia, quando chovia, eles ficavam molhados, pois era?

Negociação e chantagem

A negociação é importante e a tia negoceia contigo desde pequenina. Por exemplo, quando não podemos fazer tudo o que gostarias, dou-te a escolher entre as opções. E quando queres fazer qualquer coisa com a qual não concordo, também te coloco a responsabilidade da escolha, dizendo-te o que acontece se optares por uma ou outra possibilidade. Por exemplo, quando te quis vestir calças e tu insististe em ir de vestido para a horta com a G. e o C. e ficaste com as pernas todas arranhadas...

Quando não te apetece fazer o que te peço e tentas a chantagem, "Só faço se...", a tia responde logo "Então não fazes, não nos zangamos. Mas também só brinco quando me apetecer" e tu percebes e acabas com a chantagem. E muitas vezes a tia nem fica chateada e até te deixa fazer outra coisa diferente porque, em vez da chantagem, tu dizes "oh, tia, desculpa, eu antes queria..." 

Mas gosto muito quando tu fazes aquela chantagem especial:

- Sobrinha, vens ajudar a tia a arrumar o quarto?

- Só se me deres um abracinho...

A Avó engasgada

Não me lembro que idade terias, se 3 ou 4, quando a Avó se engasgou e foi ao hospital.

Durante o almoço, a Avó começou a queixar-se, dizendo que lhe parecia ter um osso entalado na garganta. Depois de algumas queixas lá o conseguiu tossir. Afinal, era um pedaço de carne mais dura que tinha sido engolido sem estar devidamente mastigado. Ainda assim, porque a Avó tinha muitas dores, e tu sabes que a Avó nunca se queixa com dores!, a tia insistiu para que fosse ao hospital. E os Avós lá foram.

Como é hábito quando ficas em casa dos Avós, depois do almoço foste para casa da minha Madrinha, G., que é prima do Avô e por isso nossa prima.

Assim que chegaste, disseste muito séria:

- G., a tua amiga, sabes, a minha Avó? Foi ao hospital porque engasgou-se com um osso de carne!

 

Quando o gatinho te magoou

Sempre te explicámos que não devias fazer festas aos gatinhos e aos cãezinhos que encontravas na rua. Porque nem todos são mansos, nem todos são saudáveis, nem todos vão ao veterinário. Pois se até aos da família nem sempre lhes apetece festinhas - como a nós nem sempre apetece brincar com puzzles e preferimos jogar à apanhada, explicávamos-te.

E dizíamos-te que só devias fazer festas quando os adultos que estivessem com eles te autorizassem. Fossem cães, gatos, patos, hamsteres... bicharada.

Assim, fiquei um bocadito preocupada quando, ao longe, te vi perto de um filhote de gato no jardim do primo G., na festa dos 3 anos dele, tinhas tu 4. Mas estavas com adultos, e entrei em casa  para ir buscar água. Ainda não tinha esvaziado o copo e entra o avô contigo ao colo, a cara do avô branca de aflição e a tua vermelha do choro e do sangue que escorria: pediras para fazer uma festinha ao gatinho e pegaras-lhe ao colo sem dares ao avô tempo para te impedir. Contaram que, enquanto o avô te tentava explicar porque devias soltar o gatinho, a cadelita da prima aproximou-se de ti, o gatinho revirou-se, tu abraçaste-o com força e o gatinho, tentando escapar, cravou-te as garras na face.

Peguei -te ao colo, acalmei-te o choro e limpei-te a cara enquanto te fazia os curativos, chorando eu por dentro enquanto via as marcas de garras tão perto dos teus olhos.

Não mais saíste do meu colo, não me querias largar. Nem eu a ti, posso agora dizer-to. Mesmo depois da visita ao hospital, ainda soluçavas a espaços.

Esqueceste facilmente as dores. Mas durante muito tempo choravas e perguntavas:

- Mas porque o gatinho me fez mal, tia? Eu só lhe queria fazer festinhas e ser amiga dele...

E eu tentava confortar-te, era cedo para grandes explicações.

A história acabou por não ser má. As feridas não infectaram, e de cicatriz apenas um pontinho ao lado da sobrancelha esquerda e um tracinho por baixo do olho direito.

E aprendeste muitas lições, embora de uma maneira dura:

- um gatinho no jardim de alguém não significa que o gatinho seja da família;

- os animais mansinhos também podem magoar;

- os animais não agem sempre como esperas;

- por muito que lhes queiras fazer festinhas, deves ter cuidado e ouvir o que te dizem os adultos.

Eu também aprendi uma grande lição, sobrinha: não te posso vigiar todos os passos quando estás comigo, nem quero, por muito que me doam os pequenos acidentes que te aconteçam; mas o instinto de tia deve ser parecido com o instinto de mãe, porque mais tarde, enquanto te dizia para ires brincar com o primo, os meus braços teimavam em não te querer largar e o meu peito doía como nunca.

 

Não ganhaste medo dos animais. Mas ganhaste respeito, que juntaste ao carinho e à curiosidade que os animais te inspiram.

Instrumentos musicais

Tinhas 8 meses quando te dei o tambor. Nota que não o fiz por paga dos sábados e domingos em que a tua mãe me acordou às 7 da manhã... Poderia ter sido, mas não: queria habituar-te à expressão musical de pequenina. E por isso dei-te o tambor, que sabiamente ficou em casa dos avós. E dei-te o xilofone. E a pandeireta. E...

Nunca encontrei a corneta que queria, daquelas simples, de soprar: eram todas de teclas, com sons de vaquinhas e buzinas e telefones. E eu perguntava nas lojas para que servia uma corneta daquelas, e as vendedoras e os vendedores ficavam muito espantados, como se nunca ninguém lhes tivesse dito que uma corneta devia ter som... de corneta!

Enfim, não te comprei a corneta, mas descobri uma harmónica. Em madeira, com umas pinturas suaves mas muito bonitas (tinha cor-de-rosa, claro!) e pequenina, para caber bem nas tuas então pequeninas mãos.

Eu sabia que a corneta faria falta! Há 5 anos que a harmónica é dos teus brinquedos preferidos... Mas tenho que te comprar outra, aquela já está pequenita... e rouca.

Tem mesmo de ser! Até porque os dentes da frente ainda te estão a crescer e sem eles as sessões musicais são um drama:

- Oh, tia, mas eu queria assobiar com os dedos, como tu...

Cócegas

- Tia, fazes-me cócegas?

É este um pedido feito muitas vezes ao acordares. Ao deitares. Ao vestires. Desde pequenita. E eu faço e tu ris muito, e

- Tia, pára, pára, não aguento!

E eu páro. Acalmas, e dizes

- Tia, outra vez...

E eu volto a fazer-te cócegas. E ris-te à gargalhada, até pedires para eu parar. Ou eu dizer

- Pronto, sobrinha, já chega, temos de ir.

E tu acrescentas sempre

- Agora é a minha vez, tia, vou fazer-te coceguinhas...

E eu

- Não vais, não, sobrinha...

- Oh, tia, não é justo! Tu também me fizeste!

- Mas foste tu que pediste, sobrinha...

- Não interessa, tia, fizeste-me cócegas e agora é a minha vez... Oh, tia, vá lá, é tão divertido!

 

 

Por vezes recuso o teu pedido de cócegas, porque é tarde ou não tenho tempo ou outro motivo qualquer do género. E tu

- Oh, tia, por favor, por favor, por favor! Eu prometo que não te faço!

Carne ou xixa

Até teres o vocabulário desenvolvido, falámos contigo evitando diminutivos na primeira palavra: carne era carne, sopa era sopa, gato era gato... "Olha o gato! Vês o gato? É o gatinho"

Ainda não tinhas 2 anos quando o bisavô te disse:

- Ai tão linda, a papar a xixa toda!

O garfo parado a meio, olhaste o bisa, olhaste para o prato e muito séria perguntaste:

- Tia, que é xixa?

 

Atirar pedras... pois

Num passeio de fim-de-semana nos teus 5 anos, a família ainda a sair do restaurante e nós as duas mais adiantadas, viste uns meninos a atirar pedras ao ar num jardim público de Estremoz.

- Tia, aqueles meninos estão a atirar pedras?!

- Parece que estão, sobrinha...

- Mas não se faz, tia! Podem magoar-se, ou magoar um passarinho... não lhes vais dizer para não atirarem pedras, tia?

- Não posso, querida, não vês que estão com os pais?

- Os pais deles não sabem que não se deve atirar pedras?

- Talvez não...

- Se calhar os avós dos meninos também não disseram aos pais, pois foi, tia?

 

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