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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

O banquinho de jardim

Estivemos na Feira Medieval de Leiria. Na sexta-feira quiseste-te sentar num banco de jardim assim que chegámos:

- Tia, podemos sentar naquele banquinho?

- Podemos, mas olha este aqui ao pé...

- Não, Tia, naquele.

- Está bem, seja naquele.

Descansámos um pouco, e continuámos. Depois de uma volta, e de vermos o desfile e muito te teres rido com os cumprimentos do Bobo,

- Tia, podemos ir sentar num banquinho?

Fomos.

- Este, Sobrinha?

- Não, Tia, aquele é melhor.

- Mas é igual...

- Não é não, Tia, neste passa menos gente e podemos estar mais descansadas.

- Ah, está bem... e estás muito cansada?

- Não, mas quero estar sentadinha contigo a ver as coisas ao longe e a conversar sem muito barulho...

 

 

Por vezes és tão, mas tão minha sobrinha, Sobrinha!

Xeque à Tia

Desde os teus dois anitos que gostas das peças de xadrez do tabuleiro grande da avó, um tabuleiro em mármore com peças de estanho a representar figuras dos Descobrimentos.

Depois de muito pedires, este ano comecei a ensinar-te a jogar. Mas não no tabuleiro que queres - nele jogaremos depois de me ganhares o primeiro jogo, está prometido!

Temos jogado no tabuleiro de viagem, que por ser magnético, pequeno e ter figuras simples se torna mais divertido.

- Tia, posso pôr o meu bicudinho aqui?

- Muito bem, Sobrinha, o bispo move-se na diagonal.

- Tia, não comes o meu perlimpimpim?

- Talvez coma o teu peão, estás a deixá-lo sem protecção, repara bem...

- Tia, estás a fazer xeque à minha rainha?

- Estou a ameaçá-la, sim. Mas só se diz "fazer xeque" ou "ficar em xeque" quando se fala do rei, querida.

- E a rainha nunca fica em xeque?

- Não, Sobrinha. O jogo acaba quando o rei não se pode mexer ou é comido. O rei é a peça mais importante, e por isso dizemos "xeque!" quando colocamos o outro rei em perigo.

- Oh, Tia, mas porquê? Se a rainha se pode mexer muito e o rei só pode dar um passinho, não devia ser a rainha a mais importante?

A segunda janela mais bonita do mundo

Esta quarta-feira fomos a Tomar. Ainda não tínhamos bilhetes e já procuravas "a janela mais bonita do mundo".

Finalmente:

- E então, Sobrinha, o que achas da janela? É a mais bonita do mundo?

Tu, com a janela a emoldurar-te, respondeste:

- É muito bonita!

E, com a brincadeira a luzir-te no sorriso e no olhar, acrescentaste:

- Mas não é a janela mais bonita do mundo.

- Não é a mais bonita? Então qual é?

- É a segunda. A mais bonita é a do meu quarto.

E o C. perguntou-te:

- Estás a tirar muitas fotografias a esta... quantas já tiraste à janela do teu quarto?

- Nenhuma.

- Vês? Não tiraste fotografias à do teu quarto porque não é assim tão bonita...

- Não, não tirei fotografias porque não preciso, vejo-a todos os dias.

A honra da jogadora

Estas férias ensinei-te alguns jogos novos. Um dos melhores para jogar pouco antes de dormir é a batalha (de cartas): meio baralho para cada uma e basta virar as cartas uma a uma, comparando-as.

Ensonada, disseste-me ontem enquanto distribuia as cartas:

- Tia, podias dar-me essas todas...

- E eu fico só com estas?

E tu, risonha e malandrota, disseste que sim, porque querias jogar mas que não demorasse muito, pois estavas com muito sono e ainda querias ouvir uma história inventada.

Entreguei-te as cartas e, sorrindo, disse:

- Vá, vira a tua carta...

- Oh, Tia, assim não é justo, tu vais perder já!

- Mas tu estás com sono, por isso não faz mal...

- Faz, faz, Tia, não é justo e assim não tem piada!

As passadeiras sem risquinhas

Ontem à noite, na Heróis de Angola em Leiria.

- Tia, isto assim só com um risco de cada lado também é passadeira?

- É, olha ali os semáforos.

- Mas não devia ter também riscas ao contrário?

- Não, querida, as passadeiras podem ter apenas um traço largo de cada lado, como estas, e nós passamos no meio.

- A estrada está toda, toda pintada... Se calhar faltou-lhes a tinta para pintar as risquinhas, pois foi, Tia?

 

A Minnie não é uma galinha

Depois do pequeno-almoço fomos alimentar o cão e os gatos dos pais da tua Madrinha.

A Minnie, a gata que era da "Nona Arminda",  ainda se está a ambientar, e nem sempre aparece quando a chamamos. Já não tem medo da Fusca, a "princesa do pedaço", mas não conhece bem os recantos dos jardins, por isso deixamo-la andar enquanto colocamos a comida dela na respectiva taça e evitamos que o Tiago, o gato lambareiro, a coma também.

Como ontem ao jantar a Minnie não apareceu, hoje disse-te para pores um bocadinho de ração ao pé das taças de água que a G. e o F. deixam para os passarinhos.

Quando cheguei, havia bocadinhos de ração espalhados por vários metros.

- Sobrinha, a Minnie é uma gata, não é uma galinha...

- Oh, Tia, eu sei, não achas?!

- Tenho a certeza que sabes, Sobrinha! Mas não percebo porque atiraste a ração em vez de a colocares num monte pequenino...

- Porque não sei onde a Minnie está, e assim espalhado é mais fácil para ela farejar!

"Só?!"

Há pouco, estavas comigo, eu a trabalhar e tu a ler.

 

A avó chamou para o almoço, galinha com massa, ervilhas e salada. Enquanto não chegávamos, arranjou o teu prato, retirando os ossinhos mais pequenos e colocando-os no meu, por saber que gosto de os saborear. Preparou também o prato do Bisa, e quando chegámos começava a servir-se.

Todos os pratos tinham alguma coisa, e ao veres que todos estavam bem servidos e o meu só tinha um montinho de ossos sem ervilhas nem salada,  exclamaste:

- Só isto para a Tia?!

Reflexão sobre a família

Há bocadito, enquanto tentava perceber o que se passava com o som da televisão da sala:

- Tia, vês este envelope?

- Está muito bem feito, sobrinha...

- Era o que estava a fazer enquanto arrumavas a cozinha... sabes, escrevi uma carta para a família, mas só se pode abrir quando a família estiver toda junta!

Para ti, "a família" inclui os elementos de quatro casas.

Continuaste:

- Tia, na família há poucos homens, não há? São só três...

Enquanto, surpreendida, contava o teu pai, o Avô e o Bisa, a quem chamas Avô T., tu acrescentaste:

- E há tantas mulheres, tia!

Tentei perceber o teu raciocínio:

- Pois há. Somos duas vezes mais mulheres, as Avós, a tua Mãe e eu, tu e a tua Mana...

- Se tivesses tido um mano não era assim, Tia...

- Não, não era... mas não estaríamos aqui as duas no sofá.

- Então ainda bem que somos muitas, Tia!

Subtileza

Terias 3, 4 anos. Estávamos sentadas no sofá, preparadas para ver os minutos diários de desenhos ainmados.

Quiseste-te deitar, cabeça no meu colo, pés no braço do sofá, mantinha a tapar - não que estivesse frio, mas fazia parte do ritual. Ainda faz.

Deitaste-te, ergueste-te, encostaste a mãozita à minha barriga, e com um sorriso luminoso de olhos grandes disseste:

- Tia, a tua barriguinha está fofinha, pois está?

E, feliz, deitaste-te novamente!

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