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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

A colher não é tão boa como dizem

Depois do treino do garfo, e ainda antes da faca para empurrar, começaste a treinar a colher.

Comer o iogurte era fácil, a colher presa na ponta de três deditos revirava um bocado mas o iogurte lá entrava sem muito desperdício. Desde que não o mexêssemos, evitando assim que ficasse mais líquido. A gelatina, bom, a gelatina dançava na taça, dançava na colher mas, tirando a que caía, a que quase caía não era muita e não corria mal. O problema era a sopa! Escorria 3 ou 4 vezes da colher ao prato antes de te entrar na boca! Da colher ao prato, da colher à mesa, da colher às pernas... E tu, desesperada com fome e chateada com a colher que não se mantinha direita, nas primeiras vezes até tentaste comer picando a sopa com o garfo...

Mas a Tia lá arranjou solução, até porque o stock de panos de cozinha da Avó se estava a acabar: dei-te uma colher de sopa normal. Mal a conseguias dominar, mas pelo menos não cairia tudo! E começaste a comer sozinha todas as refeições - colherinha para o iogurte, garfinho, faquinha... e uma colher grande, maior do que a tua boca, para a sopa!

Enfim, entre a casa dos Avós, a casa dos Pais e a Creche, demorou um pouco mais mas em breve dominaste também a colher.

E passaste a usar, a todas as refeições em casa dos Avós, ora os talheres que tinham sido da Mãe ora os talheres que tinham sido da Tia.

Até entrares para a escola, no ano passado. Afinal, já eras uma menina crescida!

Aproximação aos talheres

Tinhas quase um ano.

Andavas na fase de deitar a mão ao prato durante as refeições, e a tua Mãe havia avisado que teríamos de te manter afastada do prato ou sairia asneira.

Estavas ao meu colo, eu a dar-te a refeição sólida depois da sopa, e tu insistias em tentar deitar a mão à comida.

Falando contigo, mesmo sabendo que não me percebias, disse-te:

- Bom, Sobrinha, se insistes em comer sozinha, o melhor será ensinar-te já a usar o garfo...

A Avó deu um salto na cadeira, o Avô olhou espantado, o Bisa parou de comer... e eu pus-te um garfinho de fruta na mão, orientando-te os gestos. Seguraste o garfo, picaste o bocadinho de carne, levaste à boca como se o fizesses desde sempre, continuaste, a minha mão a acompanhar a tua não fosses fazer algum gesto brusco ou desviares o garfo da boca.

A Avó ralhava:

- Olha que é cedo! Olha que ela aleija-se! Olha que ela não domina os gestos! Mais vale usares uma colher!

Respondi que uma colher era mais difícil pois não picava os alimentos. E continuei a colocar-te o garfinho na mão, sempre muito atenta aos teus gestos, a minha mão quase em cima da tua.

Continuei a fazê-lo a todas as refeições que podia.

Quando era a Avó a dar-te a comida, tu refilavas muito e tanto refilaste que a Avó desistiu e passou a colocar-te o garfinho na mão. Ainda tentou, mas sem qualquer sucesso, que usasses daqueles garfinhos de bebé que não passam de "colheres com risquinhas", como lhes chamaste uma vez, já maior.

Os teus pais regressaram, foste para casa, e por lá também mantiveste a autonomia.

O garfo de fruta ganhou estatuto ao lado do teu prato!

Uns tempos depois, estavas com 14 meses, vieste passar mais uma semana a casa dos Avós. E ao jantar a Avó disse:

-  Bem, a Neta não se aleija e já come os sólidos sem ajuda e sem deixar cair a comida. E é verdade que fica irritada quando não consegue apanhar os bocadinhos mais pequenos que se escapam ao garfo... Mas não achas que é demasiado cedo para a ensinares a usar faca?

 

Não era.

Usares a faca para cortar a comida é que demorou. Mas essa é outra história.

Desgostos inesperados

Terias quase dois anos, naquela tarde soalheira de Inverno. Brincávamos à apanhada, eu fingindo que corria e tu correndo à minha frente, as mãozitas atrás das costas.

A meio da brincadeira deu-te a fome e pegaste numa maçã que a G. tinha no cestinho à porta de casa. Enquanto trincavas deliciada uma Golden maior que as tuas mãos, passeavas pelos jardins.

Tropeçaste, caiste de rabito no ar e mãos no chão, levantaste-te e sorridente disseste:

- Não doeu.

Mas, quase ao mesmo tempo, olhaste para as tuas mãos e as lágrimas abriram-te o choro sofrido.

Quando verifiquei que não tinhas nem sequer um arranhão, perguntei o que se passava, e apontando o chão de ervas e areia onde rebolava a maçã, disseste:

- Eu que'ia mais!

 

"Não me apetece"

Eram horas de preparar a mesa para o almoço.

Estavas entre a mesa e o armário dos pratos, bastava mexeres os braços

- Sobrinha, podes tirar os pratos, se fazes favor?

- Não me apetece.

E afastaste-te, foste desenhar para a mesa de trabalho.

- Sobrinha, fico triste por não quereres ajudar a colocar os pratos que tu também usas, e fico muito triste porque estavas mesmo ao lado deles. Claro que também tenho o direito de não fazer o que não me apetecer, e se ao Avô não apetecer ir comprar gelado, bom, também tem esse direito. Não te esqueças de arrumar a caixa dos lápis quando acabares, é um dever teu.

Não respondeste. Continuaste a desenhar e eu continuei o que estava a fazer. Passados poucos minutos levantaste-te e vieste até mim. Em voz normal mas sem sorrisos perguntei o que querias. Nada disseste, mas abraçaste-me.

- Sobrinha, estás triste contigo? Se estás, talvez seja melhor pedires desculpa, um abracinho não chega quando sentimos que não nos portámos bem. E não me apetecem abracinhos porque eu estou triste contigo.

Não abriste a boca, mas as lágrimas andaram a espreitar. Foste buscar os guardanapos, distribuiste-os pelos lugares, paraste ao pé de mim e

- Tia, desculpa.

- Desculpo, sim, Sobrinha.

Abracei-te, abraçaste-me, conversámos um bocadinho sobre o assunto, acabámos a mesa e quando preparámos a salada já ríamos outra vez.

 

Não sei se percebeste bem a diferença entre não apetecer brincar e não apetecer ajudar. Mas não voltaste a responder "não me apetece" a um pedido de ajuda. Mesmo quando não fazes o que te peço. 

 

Fotógrafas de palmo e meio

No aniversário do teu Pai festejado este ano, estava adoentada e durante um pouco  sentei-me na sala de estar. Nas correrias entre o piso de cima, onde decorria a festa, e o teu quarto, onde brincavas com alguns dos teus amiguinhos, não passavas sem me vires abraçar. Resolveste até ficar comigo, numa enorme demonstração de ternura que ainda não percebes, Querida, mas que te é tão natural!

Mas eu não te queria sossegada a conversar quando te via tão animada, e porque não te consegui convencer a ires brincar, trouxe a brincadeira para a sala: jogar ao esconde-esconde. Acabei por servir de esconderijo várias vezes... e fui árbitro outras tantas. O curioso é que vieste para a sala com dois amiguinhos, o inseparável A. e o vizinho M., mas da tua grande amiga L. nem sinal... tinha ficado a tirar fotografias à festa:

- Sabes, Tia, a L. quer ser fotógrafa quando for grande. Já avariou a máquina do Pai e tudo...

- Mas não foste tu que partiste a máquina do teu Pai?

- Oh, oh, Tia! Eu parti a do meu Pai, a L. avariou a do pai dela...

A Sobrinha formal

No sábado arranjaste-te para dormir e deitaste-te na cama da avó a conversar um bocadinho.

Porque me havias dito que querias jogar peixinho e batalha, e que querias ouvir anedotas, histórias e canções, fui chamar-te um pouco antes da hora:

- Vá, Senhora Dona Sobrinha, horas de ir para a cama. Despede-te da Avó enquanto abro os lençóis.

- Lamento a informação, mas eu não vou dormir já...

A Fada dos Dentes vai às compras

O dente caiu na sexta ao jantar, e passada meia hora já não sabias dele... revirámos a sala, e nada.

A tua preocupação era a Fada dos Dentes, como é que ias fazer! A Tia disse que podias escrever um bilhete a explicar que o tinhas perdido e a Avó disse que podias fazer um desenho. Fizeste ambos e colocaste num envelope pequenino feito por ti.

Quando foste para a cama, perguntaste:

- Tia, como é que a Fada consegue sempre tirar os dentes de debaixo da almofada? Nunca a sinto!

- A Fada tem as mãos da grossura de uma folha de papel, Sobrinha, por isso é que ninguém a sente.

Aceitaste a explicação e continuaste:

- Oh, Tia, porque é que a Fada me dá sempre dinheiro? Eu antes queria um brinquedo...

- Oh, Sobrinha, devias ter dito isso antes, as lojas das Fadas fecharam às 19h!

- E ela não pode passar no Vasco*? As lojas lá fecham tarde...

 

 

* Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa.

A Priminha L.

A Priminha nasceu esta madrugada, ainda a noite começava. Já dormias, só saberás quando acordares.

O médico disse há muitos meses que nasceria ontem, dia 8. Mas a barriga da tua Madrinha estava maior do que a da tua Mãe no dia anterior ao teu nascimento, e a da tua Mãe era enorme! Por isso já a esperávamos há uns dias, mas ela não estava com muita vontade de nascer... É mesmo tua prima!

Quando os Avós foram levar a G. e o C. ao aeroporto, a filha deles, tua Madrinha, avisou que estava a caminho do hospital. Duas horitas de voo, e após aterrarem o C. telefonou a dizer que tinham chegado bem e que não havia novidades... já o dia 9 tinha começado há mais de meia hora e a Priminha sem vontade de nascer! Passada meia-hora, o C. telefonou a dizer que a Priminha já tinha nascido!

Sabes, Sobrinha, eu acho que a Priminha L. se atrasou de propósito: ficou à espera que os avós chegassem. 

 

E sobre a Priminha L. disseste-me há umas semanas:

- Tia, a filha da Madrinha está quase a nascer, não está?

- Está, sim.

- E depois ela vai ter outra?

- Não sei, Sobrinha...

- Mas eu gostava muito que a Madrinha tivesse outro bebé.

- Porquê?

- Porque eu também queria ser Madrinha.

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