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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

A história a duas mãos, finalmente!

O caderno desaparecido há três postais apareceu...

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... estava afinal na biblioteca da Avó, arrumado entre os teus livros, alguns dos novos e muitos dos velhinhos que tinham sido da Tia.

Agora já posso mostrar a história que escreveste... ei-la!

 

A Princesa Piolho

Era uma vez uma princesa tão pequenina que lhe chamavam de Princesa Piolho.

Quando a Tia chegou de Leiria foi escovar o cabelo da ***********. Começou a falar a Princesa Piolho:

- Não te preocupes, eu sou a Princesa Piolho.

- Então vou ter que te tirar do cabelo da minha sobrinha.

- Não, não, eu não faço mal.

- Mas tu és a Princesa Piolho. Ok, está bem, mas fazemos um acordo, vai falar com as formigas.

- Olá, formigas, podem-me ajudar?

- Ok, toma uma caixa de fósforos, pode ser a tua casa.

- Ok.

- Toma um bocadinho de vidro para lavar as mãos e um bocado de borracha para ser a tua cama.

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Esta foi a tua primeira história escrita. Não disseste como acabava, mas a Avó estava a chamar e depois esqueceste-te... Podemos continuá-la um destes dias, que dizes?

E a Tia, que apenas corrigiu os erros que, distraída, salpicaste na folha, ajudar-te-á a construir a história sem tocar nas personagens nem na acção: a tua imaginação deve voar nas palavras escritas como te voa na voz quando acrescentas pormenores às histórias que te conto.

 

Aconteceu quando a Tia tinha a tua idade

Sobrinha, a Tia ainda não encontrou o teu caderno... tens a certeza de que não o levaste?

 

Enquanto a tua história aguarda, deixo-te uma, daquelas verdadeiras!, que me aconteceu há muitos anos, seria eu da idade que tens hoje, ou talvez mais nova... a Tia escreveu-a porque participa num desafio e já a publicou no outro blogue, mas como ainda és muito pequenita para perceber o que digo por lá, copio-a para aqui. Espero que gostes. E que não te esqueças que a Mãe é a minha, não a tua... 

 

Um momento marcante

Lembro-me de ouvir na azáfama, não sei se na voz da Tia ou da Avó, que seria talvez um leopardo. Um leopardo? Só me recordava de um tigre, e não conseguia imaginar como entrelaçar no momento as barbas e os cabelos do Sandokan. Pensava nisso e esperava, as mãos no ar como se empunhando o sabre. A Mãe explicou-me então que não seria tigre e muito menos o da Malásia, mas sim um gato grande de pelagem pintalgada, ágil e trepador, e pára de dançar sobre a mesa, ainda cais!

Reparei que a lua subia e mercúrio descia, asas leves de algodão esvoaçando como se trazendo novas do tal leopardo que se aproximava. Se sabedes novas do meu amigo, cantava Adriano, a voz cristalina morrendo sob as minhas perguntas, Mãe, falta muito?, pequenas borboletas vermelhas alvoroçadas à minha volta e eu alvoroçada na espera do gato pintalgado.

Quando o Pai chegou, a guerra esquecida atrás dos olhos verdes que me olhavam preocupados, perguntou, Confirma-se? E com borboletas vermelhas voando-lhe das mãos, a Mãe respondeu, Sim, a miúda está com varicela.

História a duas mãos

- Tia, contas-me a história da Princesa Piolho?

- Não conheço essa história, Sobrinha...

- Mas foste tu que a contaste na outra semana, Tia!

- Ah, é uma daquelas histórias que a Tia inventa...conto-tas e esqueço-as...

- Tia, tens de as escrever para não as esqueceres...

- Devia, não devia, Sobrinha? E que tal escreveres tu as histórias que a Tia te conta? Podias começar por essa, a da Princesa Piolho.

- Tia, eu não me lembro de tudo... mas não há problema se contar à minha maneira, pois não?

- Claro que não, até fica muito mais giro!

E ficou assim...

(continua)

Ipod, o actual melhor amigo da Sobrinha

Ontem, ao almoço em casa dos Avós, o último antes do início das aulas:

- Que fruta queres, Sobrinha?

- Não quero fruta, Tia...

- Não?! Nem uma ameixa que o Avô apanhou, nem um morango da horta da G., nem uma fatia de melancia da horta do Bisa?

- Não, Tia, obrigada, não quero fruta.

- E um geladito, queres?

- Não, Tia, não me apetece...

- Humm, queres sair da mesa para ires jogar no ipod, é isso?

- É... 

- Calculei... mas não vais, sabes que a Tia não te deixa estar muito tempo com o ipod porque gosta que tenhas uns olhos saudáveis.

- Oh, Tia!

- Podes ir ver um bocadinho de televisão, podes ir brincar para a rua, podes ir ler ou fazer desenhos, mas jogar com o ipod não, jogaste antes do pequeno almoço e já chega. Até porque os avós vão levar-te a casa e certamente queres jogar um bocadito pelo caminho...

- Oh, Tia, mas no carro não tenho rede!

- Jogas um jogo que não precise de rede. Agora podes levantar-te da mesa e ir fazer quase tudo o que te apetecer, mas não jogar com o ipod.

- Estás a ser má!

- Não, estou a ser boazinha porque estou a defender os teus olhos. E agora, não queres sobremesa?

- Não!

- "Não, obrigada." Podes levantar-te.

Passado um bocadito, peguei num cornetto dos pequenos e fui comê-lo para perto de ti, dizendo:

- Humm, este gelado é mesmo bom!

- Gosto mais da parte da bolacha...

- Queres?

Sorriste e ficaste com o gelado que eu tinha levado para ti. Mas só depois de me teres quase obrigado a comer a parte de cima...

... acho que foi a tua maneira de dizeres que não estavas chateada. Porque depois não paraste de falar comigo, e antes de ires embora trepaste para o meu colo, abraçaste-me e abanando-nos cantaste "O barquinho". 3 vezes!

 

Confusões do sono

Ontem estavas quase a dormir depois de um serão de jogos. Mas ainda me pediste uma história. E outra...

- E  depois duas canções, está bem, Tia?

- Está bem, Sobrinha...

Como gosto de te habituar a músicas novas, e porque te supunha já adormecida, cantei-te apenas o refrão da "Balada do Outuno":

notas musicais2.jpgRios que vão dar ao marnotas musicais2.jpg

notas musicais2.jpgDeixem meus olhos secarnotas musicais2.jpg

notas musicais2.jpgÁguas das fontes calainotas musicais2.jpg

notas musicais2.jpgOh, ribeiras chorainotas musicais2.jpg

notas musicais2.jpgQue eu não volto a cantarnotas musicais2.jpg

 

E ouço-te sonolenta mas aflita:

- Tia, porque não voltas a cantar?

Reciclagem...

... foi o que disseste fazer com as aparas de lápis.

Acabaste a barra de cola antes de acabares o trabalho - e o problema era a falta de cola. Que ultrapassaste com bocadinhos de fita-cola dobrados. Que arrancaste quando a tia de entregou um tubo de cola, depois de quase teres arrancado os cabelos por o trabalho não estar a sair como querias... e que não querias desvendar enquanto não terminasses! Mas tiveste que pedir ajuda. Eu prometi olhar só o tempo necessário para te poder ajudar, nem mais um segundo. E cumpri, não cumpri? Pronto, cumpri quase, demorei um bocadinho mais a perguntar o que querias fazer com o projecto.

Enfim, reciclando aparas e afiando lápis que não precisavam de ser afiados, o resultado foi uma mesa de trabalho muito desarrumada, uma cara muito feliz e um projecto a precisar de fotografias:

- Agora quero colar aqui fotografias pequeninas, entre os corações... ajudas, Tia?

- Claro, Sobrinha! Vem cá, vamos escolher algumas para encolher...

(demorou mais do que a Tia pensava, 7 anos de fotografias são muitos anos!)

... e o resultado foi este.

 

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Uma série de desgraças

Andei 4 dias a tentar que visses "Uma série de desgraças". Nunca havia visto um episódio que fosse, mas conheço os livros e o filme, "Lemony Snicket: uma série de desgraças", e sabia que irias gostar.

Finalmente, na sexta-feira antes de almoço estava demasiado calor para brincares no jardim, e consegui que largasses o ipod. Coloquei o primeiro episódio, e aguardei a tua reacção.

- Não estou a a achar piada nenhuma, Tia, antes quero jogar mine craft!

Disseste quando ainda não tinham passado 30 segundos de filme. Respondi:

- Lembras-te do que que aconteceu com "O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa"?

- Lembro. Pronto, eu vejo mais um bocadinho...

E viste. Mais um bocadinho, um bocado e um bocadão! Nem querias sobremesa, tal a pressa em voltares para o sofá! 

O dia quente facilitou-te a vida, e ficaste a tarde no fresquinho da sala de televisão. Quando te disse que já chegava, disseste:

- Oh, Tia, isto é mesmo uma série de desgraças! Só lhes acontecem coisas más... e agora a mim também! Não posso ver mais um bocadinho, Tia, por favor?

Entre o chorar e o chorar a rir

Aos 4 anos, mudaste de casa.

O vendedor da casa nova chamava-se Sr. Leão, e quando a visitaste contaste logo à Tia como era "a casa do rei leão": gostavas muito dela - era pertinho da antiga, mas "muito grande", e ia ter móveis novos... e tu podias ajudar a decorar.

Quando as cadeiras da sala vieram, numa quarta-feira, parece que as achaste muito brancas. No dia seguinte, a tua Mãe descobriu duas com florinhas desenhadas nas costas.

- Filha! Nunca escreveste nos móveis, e agora estragaste as cadeiras novas?! Porque é que fizeste isto?!

- Porque eu queria que ficassem mais bonitas...

A tua Mãe explicou-te que não podia ser, limpou as cadeiras, e quando a Tia chegou, na sexta feira, ainda se notava uma manchinha cor-de-laranja numa delas.

Ouvi a história, sorri sem que notasses - não podíamos sorrir, tinhas que perceber que tinhas feito uma asneira!

Quando subi para pousar a mala no quarto onde iria dormir, descobri-te a pintar a parede da sala... e disse à tua Mãe:

- Irmã, tem calma, mas... a miúda está a desenhar na parede à entrada do meu quarto...

- Filha! Sinceramente! Então a Mãe não te disse que não se pode pintar nas paredes?!

- Não, Mãe, disseste que não podia pintar os móveis. E eu queria que a sala estivesse bonita para a Tia e os Avós...

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Pintura rupestre datada de 25 de Junho de 2016

A artista foi interrompida em plena inspiração.

 

Resolve nem que não jante

Estou ao computador, e tu, depois de teres feito alguns exercícios escolares, estás entretida num trabalho manual de colagem que envolve aparas de lápis. Que ias reciclar, disseste - e nem imagino o que será ou o que daí sairá.

Vais trabalhando em silêncio, enquanto verifico o correio electrónico. Mas de repente sorrio e abro este postal. Porque, distraída, começas a falar sozinha:

- Te-mos a-qui um pro-be-le-ma...

Cantarolas, e tão envolvida estás no trabalho que decido não te corrigir o pro-ble-ma.

E continuas:

- Ai te-mos, te-mos... mas eu vou re-sol-ve-lo... .. ... ho-ho, acho que isto não resulta... ah, mas vou resolver, ai vou sim! Nem que não jante hoje!

Tens tempo. Acabámos de almoçar há uma hora...