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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

A Sobrinha-correio

histórias dos dias de ter de estar em casa

Acredito que ainda te lembres desta... foi ontem ao jantar.

O teu pai grelhou peixe e, sabendo que tanto os avós como a tia gostam muito de robalo grelhado, enviou uma fotografia com a mensagem:

- Vai um robalinho?

Respondi, brincando:

- Manda cá a Sobrinha com uns quantos. Devolvo-ta daqui a uns dias com um frango assado.

Passado uns minutos, ouvi a tua mensagem de voz:

- Oh, Tia, eu não sou correio!

Muita fruta para a camioneta da Tia

Não sei se terias já 4 anos.

Havias andado a colher morangos e pêssegos e, sentada no banco sob as laranjeiras, fazias um piquenique de fruta. Estavas muito satisfeita, a retirar cada peça da cesta e a lavar cuidadosamente na taça de água que me tinhas pedido.

Vendo-te de cara feliz, mas lambuzada, ainda me calei. Mas, finalmente, disse-te:

- Sobrinha, vai lavar a cara, daqui a pouco estás cheia de borbulhas...

- O pêssego faz borbulhas, pois faz, Tia?

E, ajeitando-te no banco de pedra, deliciada continuaste a roer o pêssego.

- Sobrinha, vem, vamos lavar a cara, já não te posso ver assim!

E tu, com a inocência da idade:

- Está bem, Tia. Mas podes fechar os olhos para eu acabar de comer este pêssego?

Como a Tia se engana...

Quando estás comigo, apanho-te o cabelo num rabo-de-cavalo. Poucas vezes te dei a escolher, dizendo-te sempre que "meninas traquinas usam cabelo curto ou apanhado para brincarem descansadas". Nunca recusaste, e é quase um hábito mal chegas a casa da Avó ou à minha.

Antes do Carnaval, fui passar uns dias contigo. Em casa não costumas apanhar o cabelo, e fiquei muito espantada quando, no domingo à noite, me perguntaste se no dia seguinte te poderia pentear.

Disse que sim, claro, tinhas ginástica e pensei ser esse um mimo, uma forma de estares comigo um bocadinho antes de ires para a escola.

Às 7 horas e 40 minutos estavas à porta do meu quarto com a escova e um elástico.

 

Nesse dia fiquei acordada até muito, muito tarde... e 2 horas depois acordaste-me para te apanhar o cabelo.

- Claro, Querida! Mas não sabia que hoje também tinhas ginástica.

- Não tenho, Tia.

- Ah, pensei... 

 

Resolveste que todos os dias te apanharia o cabelo, e assim foi. E eu sem perceber o porquê da mudança, até me explicares que eu te fazia um "rabo-de-cavalo que se via no alto da cabeça".

Na quarta-feira à noite despedi-me de ti pois, embora te fosse levar à escola, não teríamos tempo para grandes despedidas no dia seguinte. Ficaste muito triste.

- Oh, Tia, não podes ficar até sábado?

-Não, Sobrinha, tenho reuniões marcadas.

- Oh Tia, e não podes ir embora só na sexta de manhã?

- Não, Sobrinha, não posso.

- Oh, Tia, mas sexta-feira é o Carnaval e eu vou vestir-me de Super-Mulher...

Estavas triste, a Tia tantos dias contigo e ia embora na véspera do dia mais importante da semana. Sem sequer te ver mascarada...

- Oh, Sobrinha, também tenho pena de não te ver! Mas o Pai e a Mãe tiram fotografias e mandam-me, está bem?

- Pois, está bem, Tia... mas quem é que me vai fazer o rabo-de-cavalo?! E logo na sexta-feira, em que queria estar mais bonita!

Um conto para um desenho

Histórias dos dias de ter de estar em casa

Telefonaste-me. Precisavas que te falasse de um conto tradicional para depois fazeres um desenho.

Aproveitei o pedido e contei-te a história de Pedro, o menino que gritava "lobo", já a pensar noutras actividades que te iria propor.

- Tia, já me contaste essa história, tenho uma vaga ideia... mas sou sincera,  não me lembro de nada!

Sorri ao ouvir-te a vaga ideia, e respondi ser uma óptima altura para a voltar a contar.

A história saiu mais simples do que o normal, pois querias um tema para um desenho e não uma história para te entreter. Percebeste os vários momentos da acção, fizeste perguntas, riste-te, e até decidiste fazer não apenas um mas quatro desenhos, uma verdadeira banda desenhada.

Quando passámos à escrita da história, que te iria ajudar na construção dos desenhos, a conversa já não correu tão bem:

- Tia, não foi assim que disseste há bocado!

- Tia, mas há bocado foi o chapéu que caiu quando eles fugiram, não foi o casaco...

- Tia, mas afinal ele gritava lobo por ser traquinas ou por ser mentiroso?

Expliquei-te que ao contar uma história as palavras variam, pois não as estamos a ler, e que até as situações podem ser contadas de forma diferente, como quando tu pegas nas histórias que invento e acrescentas pormenores ou mudas um bocadito das conversas.

Chegámos a acordo, e lá continuei a história, tentando usar as mesmas palavras e algo perdida por ocasionais interrupções "É ponto final, Tia, ou é vírgula?", "É com dois esses, pois é, Tia?". Foste escrevendo, mas quando chegámos à floresta onde o Pedro foi mordido,  tudo se complicou! A tia já não se lembrava exactamente de como tinha contado, sentia que faltavam alguns pormenores para que a história saísse bem escrita, tu já estavas cansada e já te atrapalhavas quando te pedia para leres "a partir de"...

- Sobrinha, tira uma fotografia ao que escreveste e envia-me, para ver o que falta.

- Está bem, Tia, envio já.

- E se fôssemos lanchar antes de continuarmos?

- Sim, Tia, o Pedro pode ser mordido mais logo.

A saudade e a responsabilidade

Histórias dos dias de ter de estar em casa

Ao telefone,

Num destes dias de ter de estar em casa:

- Sobrinha, estou com tantas saudades!

- Obviamente, Tia!

 

Não sei se fiquei mais risonha com o desplante desta resposta ou com a ternura com que acrescentaste:

- E achas que eu não tenho?!

 

Mas a gargalhada veio com a seriedade com que encerraste o tema:

- E, Tia, eu queria ir para aí, mas a Mãe e o Pai não podem e eu tenho que tomar conta deles... assim que puder, vamos, está bem?

Hoje

Não tenho conversado contigo por aqui, Sobrinha...

... mas isso muda Hoje!

 

Gostei muito de ver a surpresa que os teus amigos te enviaram, tantos desenhos e tantos sorrisos num filme de um minuto. Não é a festa a que estás acostumada, eu sei... mas também sei que Tu sabes ser essa a melhor festa que poderias viver hoje! E podes repeti-la quantas vezes queiras, que bom!

Quero dizer, Essa festa é a melhor que poderias viver hoje, com excepção da que vais viver daqui a um quarto-de-hora, com bolos i-guai-zinhos em casas distantes e um coro de vozes muito desafinadas que ainda desafinarão mais pelo Skype e pelo WhatsApp! Mas quem se importará com a música, se o que interessa é a alegria?

 

Até já, meu amor maior, e que estas palavras te abracem como eu te abraçaria.

Como te abraçarei assim que puder!