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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

A casinha

Tinhas 3 anos quando te fiz uma casinha de brincar.

 

Peguei em dois dos maiores caixotes que consegui encontrar, tirei um dos lados a cada um e uni-os com fita larga. Ficou um caixotão!

Num lado cortei a janela, deixando o cartão preso para fingir as portadas. Debruadas a fita verde como as portadas da casa dos avós, abriam para fora e mostravam a rendinha de um lençol velhote a fingir de cortinado.

A porta tinha uma maçaneta botão de casacão quase do tamanho da palma da tua mão. Na altura entravas de pé por essa porta... 

As paredes tinham fita vermelha a fingir uma cerca de jardim, e muitas flores coladas que pintaste e recortaste sem saberes para o que eram. E tinham borboletas de asas soltas que abanavam quando soprávamos, borboletas gigantes maiores do que as flores... mas ninguém achou estranho.

O telhado, feito com os cantos de outro caixote, foi forrado a papel vermelho, e um tubo de papel de cozinha foi a chaminé - aquela onde mais tarde quiseste colar uma nuvem de fumo e quase arrancaste o telhado...

 

Adoraste a casinha desde que a viste! E perguntaste se era mesmo tua e se a podias levar para casa, mas percebeste que "não cabia no carro".

Sempre que ias a casa dos avós, a primeira coisa que fazias era entrar na tua casinha  e espreitar-nos pela janela.

Quase choraste quando deixaste de caber naqueles caixotes! Durante mais de um ano tinham sido "a tua casinha em casa dos avós".

 

 

Que, até aos teus quase 4 anos, pensaste ser também a minha.

Numa das noites em que ficaste nos avós, disse-te enquanto te vestia o pijama:

- Amanhã quando acordares tens de chamar a avó, porque a tia hoje não dorme cá.

- Vais onde, tia?

- "Onde vais, tia?" Vou para minha casa, pois amanhã...

- Tua casa?! Esta casa não é a tua casa, tia?

- Não, sobrinha, esta é a casa dos avós... eu tenho a minha casa, como tu tens a tua; mas a tua é muito longe e a minha é mais perto.

- Mas estás cá sempre quando eu venho, tia! E ficas comigo quando os pais vão embora!

- Porque quero estar contigo todos os minutos que puder.

- Então e porque é que não ficas comigo em tua casa, tia?

- Porque os avós e o bisavô  também querem estar contigo, e assim estamos todos.

- Então e porque é que quando os pais vêm não ficamos todos em tua casa?

- Porque esta casa é muito grande e todos temos os nossos quartos; mas a minha casa é pequenina, sobrinha, não podemos dormir lá todos porque não cabemos.

- Oh, tia, mas eu nunca fui a tua casa... e eu gostava tanto, tia!

- Pois não, sobrinha. Mas prometo-te que, na próxima vez que vieres passar uma semana a casa dos avós, vamos para minha casa dois dias.

 

Em Julho desse ano cumpri a promessa.

Nunca tive a certeza daquilo que esperavas encontrar, o que terias imaginado... mas desconfio.

Porque quando entraste em minha casa, e depois de atravessares o corredor que acaba no meu quarto, miraste a cama larga, olhaste para o candeeiro do tecto, viraste-te para mim e disseste:

- Afinal a tua casa é grande, tia! E alta!