Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

O salame de chocolate

“Apetece-me comer bolo!”, pensou o Menino quando acordou da sesta.

 

Depois do almoço, tinha visto uma nuvem escura a tapar o Sol. “A Nuvem parece zangada com a Bola, que dorme ali no canto da cozinha. E deve estar mesmo zangada, a Bola treme e parece encolher-se, coitadinha…”, pensou. Como se uma bola tivesse medo das gotas de chuva que estão dentro de uma nuvem! Na verdade, era o vento soprando por baixo da porta que fazia a bola abanar, mas o Menino fingia que não sabia e dizia que a bola tinha medo. É que o Menino queria um cão, mas como espirrava muito, muito, muito e ficava com borbulhas quando brincava com cães, não podia ter um. Por isso, quando não podia jogar futebol fingia que a bola era um cão.

“Se não tivesses medo da Nuvem ainda encolhias a barriga e fugias por debaixo da porta, não é, Bola? Claro, tu gostas de rebolar e saltar no jardim” disse o Menino em voz alta. E a bola abanou-se toda, como se dissesse que sim. “Mas coitadinha da minha Bola”, continuou enquanto lhe fazia uma festinha, “a Nuvem não te deixa ir brincar lá fora, pois não?” e a bola abanou-se outra vez, e parecia mesmo, mesmo, mesmo concordar.

“Queria brincar contigo dentro de casa, mas não posso porque… lembras-te do que aconteceu à jarra que estava em cima da mesa? Lembras? Pois é, Bola, a perna da mesa do corredor ainda tem fita-cola, mas a jarra ficou tão partida que acabou por ir morar no caixote do lixo. Por isso, hoje tens de dormir enquanto eu brinco com outra coisa. Mas, olha! a Nuvem está tão escura que acho que também vou dormir um bocadinho.”

E dormiu. Mais do que um bocadinho: o Menino dormiu quase até à hora do lanche! Dormiu e sonhou com nuvens e bolas de futebol. Quero dizer, começou por sonhar com nuvens e bolas de futebol, mas a meio do sono já sonhava com nuvens de algodão doce e bolas de Berlim e queques de laranja e... ele não comia muitos doces, mas desta vez acordou com uma grande vontade de comer bolos e algodão doce e todas aquelas coisas boas com que tinha sonhado!

 

Antes de lanchar, foi espreitar a Nuvem. Espantado, viu que estava maior e mais escura – se é que é possível uma nuvem grande e escura ficar ainda maior e mais escura! Mas estava mesmo, mesmo, mesmo maior e mais escura. E até pareceu que a Nuvem sabia que ele tinha acordado, porque começou a chover uma chuva tão forte que quase parecia branca. E o Menino pensou “a Nuvem continua zangada com a Bola, e agora também parece zangada comigo! Que pena, não posso ir brincar com a Bola na rua. Mas esta chuva branca faz-me lembrar leite… é isso! Um copo de leite quentinho é que vai saber mesmo bem com o bolo que vou comer”.

A caminho da despensa viu que a Bola tinha acordado, ou assim lhe pareceu, porque ela abanava-se como se a espreguiçar-se. Na verdade, era o vento por baixo da porta que a fazia balançar. Mas o Menino fingiu que era a Bola a acordar porque, se alguém lhe dissesse que não podia brincar com bolas dentro de casa, sempre poderia responder “Não estou a brincar; estou a embalar a Bola porque ela está com medo."

Pegou na bola, colocou-a debaixo do braço e foi buscar um bolo. Quero dizer, foi procurar um bolo. E procurou na caixa vermelha onde se guardam as fatias de bolo e procurou na caixa azul onde se guardam os biscoitos e até procurou na caixa verde onde se guardam os rebuçados. Mas procurou e procurou e nem uma migalha encontrou! “Não há bolo em casa, a Nuvem está zangada e não me deixa sair... e agora, o que faço a esta vontade de comer bolo?”

O Menino lembrou-se que a Avó tinha trazido um pacote de suspiros comprados na festa da aldeia. Por isso, procurou melhor, mudou de prateleira, voltou a procurar e quase bateu as palmas quando descobriu, bem escondido atrás da farinha, o pacote castanho onde a avó os tinha colocado! Mas o pacote castanho parecia envergonhado, encostado a um pacote de bolachas Maria. Na verdade, o pacote não estava envergonhado: o pacote de suspiros estava vazio! “Ai, ai, ai o que eu fiz, Bola! Comi o último suspiro no fim-de-semana e não disse a ninguém, e como pacote parece cheio não compraram mais…  e agora, Bola, o que faço a esta vontade de comer bolo?”

Sem ligar nenhuma ao pacote de bolachas Maria, olhou para a bola, apertada debaixo do braço, e ela pareceu abanar-se para a farinha. Na verdade, era o braço do Menino que a estava a fazer mexer, mas o Menino estava com tanta vontade de comer bolo que nem reparou. Quanto mais o Menino a apertava, mais a bola se abanava para a farinha. E apertou-a tanto que a bola lhe saltou do braço e rolou até ao forno. E o Menino disse, muito alegre: “És muito, muito, muito esperta, Bola! Boa ideia! Vou fazer um bolo!” Porque era bolo que queria. E, na verdade, bolachas Maria não são bolo, são só bolachas.

 

Com a bola outra vez debaixo do braço, pegou num livro de receitas e leu “Bolo de laranja, bolo de canela, bolo de ananás, bolo de chocolate… Olha, Bola, chocolate! Vou fazer bolo de chocolate!” Mas o bolo de chocolate tinha de ir ao forno, e o Menino lembrou-se que não podia usar o forno. “Oh, Bola, eu não sei usar o forno. E também não o posso usar sem ajuda, não é? Porque parece fácil, mas o forno é grande e muito, muito, muito quente. Eu posso queimar-me, ou entalar-me ou cortar-me… e eu sei que tu és muito, muito, muito esperta, Bola, mas se eu me aleijar não podes ir chamar ninguém à sala nem me podes levar ao hospital, pois não?”

Enquanto falava, a bola balançava encostada à sua barriga. E o Menino, muito triste por não ter bolo, achou que a bola abanava a cabeça de tristeza. Mas a vontade de comer bolo tinha de esperar, o Menino tinha de desistir: não havia bolo nem maneira de o fazer.

Quando estava a fechar o livro de receitas, a bola escorregou-lhe do braço e caiu em cima do livro, mesmo, mesmo, mesmo em cima da última folha. “Bola, olha só o que descobriste! SALAME DE CHOCOLATE! Tem chocolate e não precisa de ir ao forno!” disse enquanto lia a receita. “Bola, és mesmo, mesmo, mesmo esperta! És a mais esperta de todas!” Na verdade, estava tão contente que quase, quase, quase esqueceu que a bola não era um cãozinho.

 

O Menino colocou a bola no chão com muito cuidado e muitas festinhas, para acalmar o medo da Nuvem. Na verdade, não queria que a bola rolasse e fosse bater na mesa do corredor que, coitada, já estava coxa. “Não tenhas medo, Bola. Ficas aqui no teu cantinho ao pé da porta enquanto eu faço o salame, e quando estivermos a lanchar vais esquecer a Nuvem, está bem? Mas agora preciso das minhas mãos, por isso não te assustes enquanto as vou lavar, venho já, já, já”.

Depois de lavar e de limpar a mesa da cozinha, e com as mãos muito bem lavadinhas, foi buscar tudo o que precisava: 40 bolachas, uma chávena cheiinha, cheiinha, cheiinha de chocolate em pó, outra chávena com açúcar, mas só até meio porque as bolachas já eram doces, mais outra chávena com a manteiga de meio pacote, e um ovo.

Estendeu um pano lavado, despejou o pacote de bolachas, dobrou o pano… e começou a bater nas bolachas com uma colher de pau pequenita. A bola parecia tremer de pena das bolachas (na verdade, era o vento por baixo da porta), mas o Menino disse-lhe “Não sejas tonta, Bola, não ouves as bolachas a rir? Eu pensava que não as queria e elas ficaram tristes, mas como as vou usar na receita, partem-se de contentes.” E era verdade. As bolachas estavam a ficar desfeitas, e a bola pareceu tremer de felicidade.

Depois, deitou as bolachas que já eram migalhas numa tigela, e para elas não ficarem sozinhas despejou logo o chocolate em pó. “Olha, Bola, vê como as bolachas misturadas com o chocolate fazem uma massa tão escura como a Nuvem! Ainda bem que vou juntar açúcar branquinho”, cantarolou enquanto pegava num ovo. “Agora tenho de partir este ovo para dentro de uma taça, e depois tenho de misturar a clara e a gema com muito cuidado, não posso deixar nem um bocadinho de casca”. Enquanto mexia o ovo com um garfo, o Menino olhava para a chávena com manteiga que estava no microondas. “1 minuto, Bola, e a manteiga derrete. Depois já a posso misturar na tigela. Mas claro que com muito cuidado, a manteiga está quente e eu quero bolo na minha boca, não quero bolhas nas minhas mãos!”

O ovo estava mexido e a manteiga tão mole como se estivesse na praia num dia de calor, e antes que a manteiga parecesse querer dar um mergulho no mar, o Menino despejou tudo na tigela. Com a colher de pau mexeu, remexeu, misturou… e quando achou que estava tudo bem misturado, provou. Rindo, disse alto: “Hum, Bola, às vezes põem este chocolate no meu leite, mas vou dizer que não quero mais! É que esta mistura está mesmo, mesmo, mesmo de-li-ci-o-sa! Mas deixa-me acabar de mexer que também já provas.”

O Menino continuava a fingir que a bola era um cão e podia lanchar com ele. Na verdade, não podia dar bolo à bola porque as bolas não comem.  E também não podia dar bolo de chocolate a um cãozinho porque o chocolate faz muito, muito, muito mal aos cães. Mas continuou a fingir. E a bola, com um sopro do vento por baixo da porta, balançou como a dizer que sim, que estava cheia de vontade de provar o bolo.

Estava mesmo, mesmo, mesmo a acabar de fazer o bolo quando o Menino descobriu que lhe faltava uma coisa muito importante: papel para enrolar o salame. “Tenho de colocar a massa numa folha de papel vegetal ou de alumínio e enrolar como se fosse plasticina…. E agora?” perguntou o Menino, quase a chorar “Onde é que vou encontrar o papel?!” Virou-se e revirou-se a mirar a cozinha, dando sem querer um piparote na bola que rolou devagar e parou em frente do armário das gavetas. “Viva a minha Bola, a Bola mais esperta do Mundo!” cantarolou o Menino ao lembrar-se que o papel estava numa gaveta. 

Esticou um bocado de papel vegetal na mesa da cozinha, deitou a massa, enrolou, enrolou outra vez, e ainda voltou a enrolar, num vai-e-vem, num vem-e-vai, até que a massa quase parecia um rolo de plasticina. Na verdade, era mas é um belo rolo de salame de chocolate! Com cuidado, colocou o rolo no frigorífico, para o salame ficar duro e poder ser cortado às fatias.

 

Enquanto esperava, arrumou a mesa da cozinha e lavou a loiça toda. Como o salame tinha de estar no frigorífico durante 30 minutos inteirinhos, o Menino ainda teve tempo para preparar a mesa para o lanche. E de olhar para a Nuvem. “Olha, Bola, a Nuvem está mais pequena e não está tão escura! Foi por ter estado a chover tanto, sabias? Mas o vento está a levar a Nuvem embora, estás a ver?”, disse enquanto pousava o leite na mesa.

 

Lá em casa, ainda pensavam que o Menino dormia a sesta. Por isso ficaram muito espantados quando viram um lanche tão apetitoso em cima da mesa muito bem arranjadinha! Sorrindo, trincavam gordas fatias de bolo e não paravam de exclamar "que bom que está este salame!", e ninguém ficou chateado quando o Menino pediu desculpa por ter comido o último bolinho do pacote.

A bola, na cadeira ao lado, parecia tremer com vontade de dar uma trinca. Na verdade, era o Menino que a fazia abanar quando tocava na perna da cadeira. E enquanto lambia os lábios pintados de leite e salame, contou como a Bola tinha vencido o medo da Nuvem e o tinha ajudado a fazer o bolo.

A Nuvem estava longe, cada vez mais pequena, mas a noite começava a acender os candeeiros na rua. Por isso, o Menino já não saiu depois do lanche. Mas, na verdade, eu acho que o Menino não teve pena de não ir brincar para a rua… afinal, tinha brincado com a bola enquanto fazia o salame. E o salame estava mesmo, mesmo, mesmo de-li-ci-o-so!