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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

Quando o gatinho te magoou

Sempre te explicámos que não devias fazer festas aos gatinhos e aos cãezinhos que encontravas na rua. Porque nem todos são mansos, nem todos são saudáveis, nem todos vão ao veterinário. Pois se até aos da família nem sempre lhes apetece festinhas - como a nós nem sempre apetece brincar com puzzles e preferimos jogar à apanhada, explicávamos-te.

E dizíamos-te que só devias fazer festas quando os adultos que estivessem com eles te autorizassem. Fossem cães, gatos, patos, hamsteres... bicharada.

Assim, fiquei um bocadito preocupada quando, ao longe, te vi perto de um filhote de gato no jardim do primo G., na festa dos 3 anos dele, tinhas tu 4. Mas estavas com adultos, e entrei em casa  para ir buscar água. Ainda não tinha esvaziado o copo e entra o avô contigo ao colo, a cara do avô branca de aflição e a tua vermelha do choro e do sangue que escorria: pediras para fazer uma festinha ao gatinho e pegaras-lhe ao colo sem dares ao avô tempo para te impedir. Contaram que, enquanto o avô te tentava explicar porque devias soltar o gatinho, a cadelita da prima aproximou-se de ti, o gatinho revirou-se, tu abraçaste-o com força e o gatinho, tentando escapar, cravou-te as garras na face.

Peguei -te ao colo, acalmei-te o choro e limpei-te a cara enquanto te fazia os curativos, chorando eu por dentro enquanto via as marcas de garras tão perto dos teus olhos.

Não mais saíste do meu colo, não me querias largar. Nem eu a ti, posso agora dizer-to. Mesmo depois da visita ao hospital, ainda soluçavas a espaços.

Esqueceste facilmente as dores. Mas durante muito tempo choravas e perguntavas:

- Mas porque o gatinho me fez mal, tia? Eu só lhe queria fazer festinhas e ser amiga dele...

E eu tentava confortar-te, era cedo para grandes explicações.

A história acabou por não ser má. As feridas não infectaram, e de cicatriz apenas um pontinho ao lado da sobrancelha esquerda e um tracinho por baixo do olho direito.

E aprendeste muitas lições, embora de uma maneira dura:

- um gatinho no jardim de alguém não significa que o gatinho seja da família;

- os animais mansinhos também podem magoar;

- os animais não agem sempre como esperas;

- por muito que lhes queiras fazer festinhas, deves ter cuidado e ouvir o que te dizem os adultos.

Eu também aprendi uma grande lição, sobrinha: não te posso vigiar todos os passos quando estás comigo, nem quero, por muito que me doam os pequenos acidentes que te aconteçam; mas o instinto de tia deve ser parecido com o instinto de mãe, porque mais tarde, enquanto te dizia para ires brincar com o primo, os meus braços teimavam em não te querer largar e o meu peito doía como nunca.

 

Não ganhaste medo dos animais. Mas ganhaste respeito, que juntaste ao carinho e à curiosidade que os animais te inspiram.

7 comentários

[acho que...]