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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

O Instante do Insta

Histórias dos dias de estar em casa - da Avó

A Tia ficou aflita quando lhe disseste estares a publicar vídeos no Insta!

No Instagram? Terias aprendido a criar uma conta sozinha?

 

Gostas muito de ver vídeos de instruções, daqueles que ensinam a fazer desde origami a bolos, que orientam a criação de plasticina ou o arranjo das torneiras - sem falar nos que desvendam truques para o Mine Craft! Gostas dos vídeos, vês com muita atenção, entendes que consegues fazer... e fazes! Quantas vezes sem nada nos dizeres, em silêncio preparando a surpresa com que nos brindas, sorrindo depois do nosso espanto e do nosso orgulho na tua conquista. Bom, quero dizer, a maior parte das vezes, pois de quando vez... mas são outras histórias, ficam para outro dia.

 

Não, não me admiraria que tivesses encontrado um vídeo sobre como criar uma conta no Instagram e te tivesses decidido a tal.

Já te explicámos, toda a família explicou e continua a explicar, que a Internet é muito boa, mas também pode ser muito má. E tu ouves com atenção, mas felizmente ainda não percebes a dimensão da maldade. Como poderias perceber que as meninas alegres que vês a dançar e a cantar recebem mensagens que as fazem chorar - apenas porque há quem goste de as fazer chorar? Como poderias perceber que as fotografias que publicam e as frases que escrevem podem ser usadas para descobrir onde vivem ou onde estão - e que há pessoas más que as querem roubar, magoar e, até, raptar? Tens tempo de perceber, Sobrinha, e por nós esse tempo nunca estaria perto. Mas não podemos deixar de te alertar. E, até viveres o suficiente para perceberes, somos nós que teremos de cuidar dos teus passos, mesmo que tu nem sempre gostes quando te pergunto "Sobrinha, posso sentar-me e ver esse vídeo contigo?"

Enfim, a Tia ficou muito preocupada. Mas depois lembrou-se que talvez, talvez, a conta não tivesse sido criada por ti. E não tinha sido. O teu Pai explicou que a conta estava privada e que as tuas publicações só podiam ser vistas pelos teus amigos. A Tia, suspirando de alívio, percebeu muito bem percebido que o teu Pai falava dos amigos a sério, daqueles que convidamos para as festas de aniversário. E percebeu também que os pais deles ainda lhes estavam a criar as contas.

 

E tu, Sobrinha, percebes agora porque tinhas poucas cortiças?

Dia Mundial da Criança

Outra vez

Olá, Sobrinha.

Hoje é, outra vez, Dia Mundial da Criança. Na verdade, deveria ser Dia da Criança todos os dias, mas hoje é um dia especial porque, há quase cem anos, vários senhores em vários países perceberam que sem crianças felizes não poderíamos ter um Mundo bom. E começaram a organizar-se para que as crianças pudessem ser crianças e deixassem de ser tratadas como se fossem adultos pequeninos, para que pudessem brincar e estudar e crescer sem trabalhar.

Os senhores de muitos países organizaram-se e escreveram uma lista das coisas que todas as crianças deveriam ter. Uma lista que há exactamente trinta anos se tornou lei, uma das leis mais importantes do Mundo! 

Mas nem todos os adultos percebem como esta lista é importante, Sobrinha, e por isso ainda há crianças tristes todos os dias. Mas temos de tentar que sorriam, Sobrinha! Não podemos parar de tentar! E, para isso, temos de começar por cumprir esta lista.

Nunca a esqueças!

 

DIREITOS DA CRIANÇA.jpg

(clica aqui! imprime este poster e oferece aos teus amigos!)

 

Porque não têm surgido postais

A Tia precisa de tempo para tirar as tuas histórias do baú onde saltitam. Sim, as memórias que tenho contigo pulam, riem, rodopiam nos pensamentos onde as guardo. E quando as quero escrever tenho de as segurar com cuidado para que não fujam, irrequietas como tu num jogo da apanhada... não param no mesmo sítio, agora uma, ainda a meio e já outra... tantas no mesmo instante!

Preciso também de tempo para recordar o que já contei - não queremos tropeçar duas vezes na mesma história, pois não?

Está quase... e entretanto lê, Sobrinha. Ler é correr mundo sem sair do lugar. E tu já sabes ler, já me podes ler ao telefone as histórias que escreveres ou que descobrires nos livros e desenhos que te aguardam.

 

Agora ainda não, mas mais velha também gostarás deste quase poema onde a Gaffe, aquela amiga que pintou as paredes deste teu quarto de brincar, fala das sobrinhas que aprendem a ler... Ela também é tia, e por isso sabe o que diz. Um dia verás!

Ipod, o actual melhor amigo da Sobrinha

Ontem, ao almoço em casa dos Avós, o último antes do início das aulas:

- Que fruta queres, Sobrinha?

- Não quero fruta, Tia...

- Não?! Nem uma ameixa que o Avô apanhou, nem um morango da horta da G., nem uma fatia de melancia da horta do Bisa?

- Não, Tia, obrigada, não quero fruta.

- E um geladito, queres?

- Não, Tia, não me apetece...

- Humm, queres sair da mesa para ires jogar no ipod, é isso?

- É... 

- Calculei... mas não vais, sabes que a Tia não te deixa estar muito tempo com o ipod porque gosta que tenhas uns olhos saudáveis.

- Oh, Tia!

- Podes ir ver um bocadinho de televisão, podes ir brincar para a rua, podes ir ler ou fazer desenhos, mas jogar com o ipod não, jogaste antes do pequeno almoço e já chega. Até porque os avós vão levar-te a casa e certamente queres jogar um bocadito pelo caminho...

- Oh, Tia, mas no carro não tenho rede!

- Jogas um jogo que não precise de rede. Agora podes levantar-te da mesa e ir fazer quase tudo o que te apetecer, mas não jogar com o ipod.

- Estás a ser má!

- Não, estou a ser boazinha porque estou a defender os teus olhos. E agora, não queres sobremesa?

- Não!

- "Não, obrigada." Podes levantar-te.

Passado um bocadito, peguei num cornetto dos pequenos e fui comê-lo para perto de ti, dizendo:

- Humm, este gelado é mesmo bom!

- Gosto mais da parte da bolacha...

- Queres?

Sorriste e ficaste com o gelado que eu tinha levado para ti. Mas só depois de me teres quase obrigado a comer a parte de cima...

... acho que foi a tua maneira de dizeres que não estavas chateada. Porque depois não paraste de falar comigo, e antes de ires embora trepaste para o meu colo, abraçaste-me e abanando-nos cantaste "O barquinho". 3 vezes!

 

A colher não é tão boa como dizem

Depois do treino do garfo, e ainda antes da faca para empurrar, começaste a treinar a colher.

Comer o iogurte era fácil, a colher presa na ponta de três deditos revirava um bocado mas o iogurte lá entrava sem muito desperdício. Desde que não o mexêssemos, evitando assim que ficasse mais líquido. A gelatina, bom, a gelatina dançava na taça, dançava na colher mas, tirando a que caía, a que quase caía não era muita e não corria mal. O problema era a sopa! Escorria 3 ou 4 vezes da colher ao prato antes de te entrar na boca! Da colher ao prato, da colher à mesa, da colher às pernas... E tu, desesperada com fome e chateada com a colher que não se mantinha direita, nas primeiras vezes até tentaste comer picando a sopa com o garfo...

Mas a Tia lá arranjou solução, até porque o stock de panos de cozinha da Avó se estava a acabar: dei-te uma colher de sopa normal. Mal a conseguias dominar, mas pelo menos não cairia tudo! E começaste a comer sozinha todas as refeições - colherinha para o iogurte, garfinho, faquinha... e uma colher grande, maior do que a tua boca, para a sopa!

Enfim, entre a casa dos Avós, a casa dos Pais e a Creche, demorou um pouco mais mas em breve dominaste também a colher.

E passaste a usar, a todas as refeições em casa dos Avós, ora os talheres que tinham sido da Mãe ora os talheres que tinham sido da Tia.

Até entrares para a escola, no ano passado. Afinal, já eras uma menina crescida!

Aproximação aos talheres

Tinhas quase um ano.

Andavas na fase de deitar a mão ao prato durante as refeições, e a tua Mãe havia avisado que teríamos de te manter afastada do prato ou sairia asneira.

Estavas ao meu colo, eu a dar-te a refeição sólida depois da sopa, e tu insistias em tentar deitar a mão à comida.

Falando contigo, mesmo sabendo que não me percebias, disse-te:

- Bom, Sobrinha, se insistes em comer sozinha, o melhor será ensinar-te já a usar o garfo...

A Avó deu um salto na cadeira, o Avô olhou espantado, o Bisa parou de comer... e eu pus-te um garfinho de fruta na mão, orientando-te os gestos. Seguraste o garfo, picaste o bocadinho de carne, levaste à boca como se o fizesses desde sempre, continuaste, a minha mão a acompanhar a tua não fosses fazer algum gesto brusco ou desviares o garfo da boca.

A Avó ralhava:

- Olha que é cedo! Olha que ela aleija-se! Olha que ela não domina os gestos! Mais vale usares uma colher!

Respondi que uma colher era mais difícil pois não picava os alimentos. E continuei a colocar-te o garfinho na mão, sempre muito atenta aos teus gestos, a minha mão quase em cima da tua.

Continuei a fazê-lo a todas as refeições que podia.

Quando era a Avó a dar-te a comida, tu refilavas muito e tanto refilaste que a Avó desistiu e passou a colocar-te o garfinho na mão. Ainda tentou, mas sem qualquer sucesso, que usasses daqueles garfinhos de bebé que não passam de "colheres com risquinhas", como lhes chamaste uma vez, já maior.

Os teus pais regressaram, foste para casa, e por lá também mantiveste a autonomia.

O garfo de fruta ganhou estatuto ao lado do teu prato!

Uns tempos depois, estavas com 14 meses, vieste passar mais uma semana a casa dos Avós. E ao jantar a Avó disse:

-  Bem, a Neta não se aleija e já come os sólidos sem ajuda e sem deixar cair a comida. E é verdade que fica irritada quando não consegue apanhar os bocadinhos mais pequenos que se escapam ao garfo... Mas não achas que é demasiado cedo para a ensinares a usar faca?

 

Não era.

Usares a faca para cortar a comida é que demorou. Mas essa é outra história.

"Não me apetece"

Eram horas de preparar a mesa para o almoço.

Estavas entre a mesa e o armário dos pratos, bastava mexeres os braços

- Sobrinha, podes tirar os pratos, se fazes favor?

- Não me apetece.

E afastaste-te, foste desenhar para a mesa de trabalho.

- Sobrinha, fico triste por não quereres ajudar a colocar os pratos que tu também usas, e fico muito triste porque estavas mesmo ao lado deles. Claro que também tenho o direito de não fazer o que não me apetecer, e se ao Avô não apetecer ir comprar gelado, bom, também tem esse direito. Não te esqueças de arrumar a caixa dos lápis quando acabares, é um dever teu.

Não respondeste. Continuaste a desenhar e eu continuei o que estava a fazer. Passados poucos minutos levantaste-te e vieste até mim. Em voz normal mas sem sorrisos perguntei o que querias. Nada disseste, mas abraçaste-me.

- Sobrinha, estás triste contigo? Se estás, talvez seja melhor pedires desculpa, um abracinho não chega quando sentimos que não nos portámos bem. E não me apetecem abracinhos porque eu estou triste contigo.

Não abriste a boca, mas as lágrimas andaram a espreitar. Foste buscar os guardanapos, distribuiste-os pelos lugares, paraste ao pé de mim e

- Tia, desculpa.

- Desculpo, sim, Sobrinha.

Abracei-te, abraçaste-me, conversámos um bocadinho sobre o assunto, acabámos a mesa e quando preparámos a salada já ríamos outra vez.

 

Não sei se percebeste bem a diferença entre não apetecer brincar e não apetecer ajudar. Mas não voltaste a responder "não me apetece" a um pedido de ajuda. Mesmo quando não fazes o que te peço. 

 

A mensagem é o mais importante

Tens 7 anos. Acabaste há um mês o teu primeiro ano de escolaridade. É natural que todos os dias encontres palavras que nunca leste ou que queiras escrever palavras que não viste escritas, que não sabes ou não lembras como escrever. A Tia tem 47 anos e continua a encontrar palavras novas - e por vezes até tem dúvidas numa ou noutra palavra que escreve desde que tinha a tua idade, vê bem!

Por isso, escreve, querida! Escreve textos e mensagens e recados, com o tempo aprenderás mais e mais palavras e aprenderás até a escrever sem erros palavras que não estão nos dicionários.

 

E se, até lá, os grandes sorrirem, acredita que será pela imaginação com que ultrapassas o que não sabes. Porque o importante é conseguires escrever o que queres e sentes, Sobrinha. Sempre! 

Como fizeste numa das mensagens que enviaste à tua Mãe, a quem sempre trataste por tu:

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Auto-crítica

No dia do casamento da prima S., não resisti e apresentei-te o blogue - explicar-te que quero escrevê-lo para ti e contigo será noutro dia.

Entre cansaços da viagem, da excitação da festa, da febre, ainda vimos 3 ou quatro postais.

- Está muito bonito, Tia! Foste tu que fizeste?

- Não, Sobrinha. Eu tive a ideia, uma amiga decorou e tu deste-me as histórias.

Sorriste. Vimos mais 1 ou 2 postais, enquanto rias e comentavas que te lembravas ou não lembravas, e quando chegámos ao teu auto-retrato:

- Oh, Tia! Esse desenho está todo mal feito, tia! Olha ali, todo torto! Não gosto nada dele!

- Mas, Sobrinha, eu acho-o tão bonito, tão colorido e cheio de pormenores...

- Mas oh, tia, não vês? Eu não tenho os ombros e a cara assim, pois não?! Eu fiz esse desenho só porque estava à tua espera, Tia, não era um desenho desenho...

 

Negociação e chantagem

A negociação é importante e a tia negoceia contigo desde pequenina. Por exemplo, quando não podemos fazer tudo o que gostarias, dou-te a escolher entre as opções. E quando queres fazer qualquer coisa com a qual não concordo, também te coloco a responsabilidade da escolha, dizendo-te o que acontece se optares por uma ou outra possibilidade. Por exemplo, quando te quis vestir calças e tu insististe em ir de vestido para a horta com a G. e o C. e ficaste com as pernas todas arranhadas...

Quando não te apetece fazer o que te peço e tentas a chantagem, "Só faço se...", a tia responde logo "Então não fazes, não nos zangamos. Mas também só brinco quando me apetecer" e tu percebes e acabas com a chantagem. E muitas vezes a tia nem fica chateada e até te deixa fazer outra coisa diferente porque, em vez da chantagem, tu dizes "oh, tia, desculpa, eu antes queria..." 

Mas gosto muito quando tu fazes aquela chantagem especial:

- Sobrinha, vens ajudar a tia a arrumar o quarto?

- Só se me deres um abracinho...