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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

A doceira da família

Hoje é dia da Mãe, Sobrinha.

Pela primeira vez não reuniremos as mães da família... mas apenas adiaremos a festa, não é? Vamos festejar tanto quando nos pudermos abraçar! Serão dias e dias de risos e beijos e doces...

Sim, porque tu já andas a treinar para doceira! E estou ansiosa para saber que bolo farás hoje para a tua Mãe. Será igual ao que fizeste há uns dias?

Para não me esquecer, partilho exactamente como me disseste:

- Tia, olha! Fui eu que fiz tudo sozinha!  A mãe estava lá em cima e não me ajudou nadinha! Pois não, Mãe?

feito pela sobrinha

 

- Que bom aspecto, Sobrinha! Estão muito bonitos! E tiveste cuidado? É tudo eléctrico, mas tens que...

- Sim ,Tia, eu sei que tenho de ter as mãos bem secas para mexer na batedeira e que não posso tocar no forno quando está quente, não te preocupes!

- Está bem, não me preocupo (!) Mas estão mesmo muito bonitos, para primeira fornada da pasteleira... Então e que receita usaste?

E tu explicaste que a tinhas inventado:

- Não vi a ninguém, Tia, é uma receita minha. Usei 100 mililitros de farinha,  1 iogurte, um bocadinho de natas do pacote, mas das frescas, Tia!, dois copinhos de açúcar...

- Dois?

- Daqueles de medir, sabes, Tia? Mas só pus um bocadinho em baixo, tipo dois dedos. Não vi quantos mililitros eram, por isso é que usei dois. E ainda um ovo e um bocadinho de sumo de limão. Queria mais, mas o limão era duro e só consegui tirar um bocadinho. Depois bati tudo bem batido e coloquei no forno a 180.

- 180?

- Graus.

- Humm, certo. E não usaste manteiga?

- Oh, Tia, claro que usei! Tinha de barrar a forma, não achas?!

- Certo, certo, só perguntei, Sobrinha. Para primeira tentativa, sairam muito dourados. E estão saborosos?

- Ficaram um bocadinho doces... para a próxima corto no açúcar! E, Tia, ainda fiz chantilly, para colocar por cima...

- Fizeste? Então como?

- Coloquei as natas e um iogurte na batedeira, juntei um bocadinho de açúcar e umas gotas de limão... mas não mando fotografia agora, Tia, porque está a arrefecer no frigorifíco. Mando depois, está bem?

E mandaste. 

feito pela sobrinha

 

Mais um pouco de fermento e fica no ponto. A doceira e os bolos 

Um conto para um desenho

Histórias dos dias de ter de estar em casa

Telefonaste-me. Precisavas que te falasse de um conto tradicional para depois fazeres um desenho.

Aproveitei o pedido e contei-te a história de Pedro, o menino que gritava "lobo", já a pensar noutras actividades que te iria propor.

- Tia, já me contaste essa história, tenho uma vaga ideia... mas sou sincera,  não me lembro de nada!

Sorri ao ouvir-te a vaga ideia, e respondi ser uma óptima altura para a voltar a contar.

A história saiu mais simples do que o normal, pois querias um tema para um desenho e não uma história para te entreter. Percebeste os vários momentos da acção, fizeste perguntas, riste-te, e até decidiste fazer não apenas um mas quatro desenhos, uma verdadeira banda desenhada.

Quando passámos à escrita da história, que te iria ajudar na construção dos desenhos, a conversa já não correu tão bem:

- Tia, não foi assim que disseste há bocado!

- Tia, mas há bocado foi o chapéu que caiu quando eles fugiram, não foi o casaco...

- Tia, mas afinal ele gritava lobo por ser traquinas ou por ser mentiroso?

Expliquei-te que ao contar uma história as palavras variam, pois não as estamos a ler, e que até as situações podem ser contadas de forma diferente, como quando tu pegas nas histórias que invento e acrescentas pormenores ou mudas um bocadito das conversas.

Chegámos a acordo, e lá continuei a história, tentando usar as mesmas palavras e algo perdida por ocasionais interrupções "É ponto final, Tia, ou é vírgula?", "É com dois esses, pois é, Tia?". Foste escrevendo, mas quando chegámos à floresta onde o Pedro foi mordido,  tudo se complicou! A tia já não se lembrava exactamente de como tinha contado, sentia que faltavam alguns pormenores para que a história saísse bem escrita, tu já estavas cansada e já te atrapalhavas quando te pedia para leres "a partir de"...

- Sobrinha, tira uma fotografia ao que escreveste e envia-me, para ver o que falta.

- Está bem, Tia, envio já.

- E se fôssemos lanchar antes de continuarmos?

- Sim, Tia, o Pedro pode ser mordido mais logo.

O sinal

No Verão fizeste um desenho. E recortaste-o. Disseste que estavas "a fazer uma coisa para quando nos vestimos".

Demoraste mais do que esperavas. E no final disseste ser para pendurar na porta do guarda-vestidos, para se saber que era um guarda-vestidos.

- Muito bonito, Sobrinha! Mas olha que nem a Tia nem a tua Mãe nem tu alguma vez duvidámos se o guarda-vestidos era ou não era um guarda-vestidos, por poucos vestido que lá tenham sido guardados ao longo de tantos anos...

- Oh, Tia, era uma boneca para as senhoras nas lojas da Mãe saberem onde se devem vestir. E quando entrassem penduravam isto e as outras senhoras sabiam que estava lá gente e já não entravam...

- Boa ideia, Sobrinha! Por isso é que tinha esta fitinha...

- Sim, Tia, era para se pendurar por aí. Mas só fiz uma e não me apetece fazer mais... Pode ficar aqui no guarda-vestidos, pois pode, Tia?

- Ah, está bem, fica a enfeitar. Mas a ideia era muito gira e útil.

- Então, Tia, fazemos assim:  quando te estiveres a vestir penduras na porta do quarto e eu não entro nem bato à porta porque já sei que te estás a vestir, está bem?

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A "boneca"

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O sinal

A história a duas mãos, finalmente!

O caderno desaparecido há três postais apareceu...

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... estava afinal na biblioteca da Avó, arrumado entre os teus livros, alguns dos novos e muitos dos velhinhos que tinham sido da Tia.

Agora já posso mostrar a história que escreveste... ei-la!

 

A Princesa Piolho

Era uma vez uma princesa tão pequenina que lhe chamavam de Princesa Piolho.

Quando a Tia chegou de Leiria foi escovar o cabelo da ***********. Começou a falar a Princesa Piolho:

- Não te preocupes, eu sou a Princesa Piolho.

- Então vou ter que te tirar do cabelo da minha sobrinha.

- Não, não, eu não faço mal.

- Mas tu és a Princesa Piolho. Ok, está bem, mas fazemos um acordo, vai falar com as formigas.

- Olá, formigas, podem-me ajudar?

- Ok, toma uma caixa de fósforos, pode ser a tua casa.

- Ok.

- Toma um bocadinho de vidro para lavar as mãos e um bocado de borracha para ser a tua cama.

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Esta foi a tua primeira história escrita. Não disseste como acabava, mas a Avó estava a chamar e depois esqueceste-te... Podemos continuá-la um destes dias, que dizes?

E a Tia, que apenas corrigiu os erros que, distraída, salpicaste na folha, ajudar-te-á a construir a história sem tocar nas personagens nem na acção: a tua imaginação deve voar nas palavras escritas como te voa na voz quando acrescentas pormenores às histórias que te conto.

 

Reciclagem...

... foi o que disseste fazer com as aparas de lápis.

Acabaste a barra de cola antes de acabares o trabalho - e o problema era a falta de cola. Que ultrapassaste com bocadinhos de fita-cola dobrados. Que arrancaste quando a tia de entregou um tubo de cola, depois de quase teres arrancado os cabelos por o trabalho não estar a sair como querias... e que não querias desvendar enquanto não terminasses! Mas tiveste que pedir ajuda. Eu prometi olhar só o tempo necessário para te poder ajudar, nem mais um segundo. E cumpri, não cumpri? Pronto, cumpri quase, demorei um bocadinho mais a perguntar o que querias fazer com o projecto.

Enfim, reciclando aparas e afiando lápis que não precisavam de ser afiados, o resultado foi uma mesa de trabalho muito desarrumada, uma cara muito feliz e um projecto a precisar de fotografias:

- Agora quero colar aqui fotografias pequeninas, entre os corações... ajudas, Tia?

- Claro, Sobrinha! Vem cá, vamos escolher algumas para encolher...

(demorou mais do que a Tia pensava, 7 anos de fotografias são muitos anos!)

... e o resultado foi este.

 

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A mensagem é o mais importante

Tens 7 anos. Acabaste há um mês o teu primeiro ano de escolaridade. É natural que todos os dias encontres palavras que nunca leste ou que queiras escrever palavras que não viste escritas, que não sabes ou não lembras como escrever. A Tia tem 47 anos e continua a encontrar palavras novas - e por vezes até tem dúvidas numa ou noutra palavra que escreve desde que tinha a tua idade, vê bem!

Por isso, escreve, querida! Escreve textos e mensagens e recados, com o tempo aprenderás mais e mais palavras e aprenderás até a escrever sem erros palavras que não estão nos dicionários.

 

E se, até lá, os grandes sorrirem, acredita que será pela imaginação com que ultrapassas o que não sabes. Porque o importante é conseguires escrever o que queres e sentes, Sobrinha. Sempre! 

Como fizeste numa das mensagens que enviaste à tua Mãe, a quem sempre trataste por tu:

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Banda Desenhada, pela Sobrinha

Numa tarde das férias da Páscoa dos teus muito recentes 7 anos, descansava na cama e tu muito entretida a desenhar numa das mesas do quarto. Podias passar horas com um papel e um lápis!, e assim não era difícil ter-te por perto, mesmo estando doente.

A espaços falava contigo, mas estavas mergulhada no papel e mal me respondias.

Quando deixámos de ouvir a chuva, espreitaste a Mata que te chamava da janela do quarto e disse-te que fosses passear, que o baloiço também tinha saudades tuas. Sorriste, e disseste que não demoravas.

Quando te levantaste, um dos papelitos esvoaçou para perto da cama e vi que o teu desenho era, afinal, um conjunto de desenhos metidos na metade da metade de uma folha.

Este:

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Pedi-te para explicares o desenho, e tu explicaste muito bem explicadinho:

- Então, tia, aqui no quadradinho 1 é uma lagarta a trepar à árvore, está a vê-la pendurada, tia?

No quadradinho 2, já fez o casulo, vês, tia, olha aqui, parece um ovo...

No quadradinho 3  já passou muito tempo e a lagarta transformou-se numa bonita borboleta, cheia de pós brilhantes, e anda a voar de flor em flor, vês, tia, olha os pozinhos a brilhar ao sol...

- E o que se passa no quadradinho 4, sobrinha?

- É o Pepe [cão], que vê a borboleta a passar e como gosta dos pozinhos brilhantes começa a saltar porque quer ser amigo dela.