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Tia! Tia! Tia!

As tias têm voz. E histórias.

O problema das cortiças

Histórias dos dias de ter de estar em casa - da Avó

Ontem à noite, verificavas as mensagens no teu telemóvel quando a tristeza te saiu na voz:

- Tia, não é justo! Eu estou desde manhã e só a Mãe e a Mana é que viram, mas a Mãe foi há bocadinho e já tem tantas cortiças!

- Desculpa, Sobrinha! A Mãe tem o quê?

Perguntei eu, espantada; talvez a tua Mãe tivesse criado um modelo com materiais diferentes, uma nova tendência da Moda?

Mas não:

- Oh, Tia, no Instagram, Tia! Eu publiquei um vídeo com uma coreografia de manhã e só tenho duas, e a Mãe publicou uma foto dela há bocadinho e já tem quase xyz*, não é justo a Mãe ter tantas cortiças!

- Ah, estás a falar de curtidas!

- Sim, Tia, isso. É o mesmo que gostos. Achas justo?!

 

 

Ri-me muito da tua expressão. Não de ti, nunca de ti. E desviei a conversa, não te respondi.

Mas acho justo, Sobrinha. Acho. E tu também acharás, um dia. Por agora, continuarás desgostosa com as poucas cortiças. E com a sua explicação, que deixo para outro postal.

 

* Tu disseste o número, a Tia ocultou-o.

A Sobrinha-correio

histórias dos dias de ter de estar em casa

Acredito que ainda te lembres desta... foi ontem ao jantar.

O teu pai grelhou peixe e, sabendo que tanto os avós como a tia gostam muito de robalo grelhado, enviou uma fotografia com a mensagem:

- Vai um robalinho?

Respondi, brincando:

- Manda cá a Sobrinha com uns quantos. Devolvo-ta daqui a uns dias com um frango assado.

Passado uns minutos, ouvi a tua mensagem de voz:

- Oh, Tia, eu não sou correio!

Muita fruta para a camioneta da Tia

Não sei se terias já 4 anos.

Havias andado a colher morangos e pêssegos e, sentada no banco sob as laranjeiras, fazias um piquenique de fruta. Estavas muito satisfeita, a retirar cada peça da cesta e a lavar cuidadosamente na taça de água que me tinhas pedido.

Vendo-te de cara feliz, mas lambuzada, ainda me calei. Mas, finalmente, disse-te:

- Sobrinha, vai lavar a cara, daqui a pouco estás cheia de borbulhas...

- O pêssego faz borbulhas, pois faz, Tia?

E, ajeitando-te no banco de pedra, deliciada continuaste a roer o pêssego.

- Sobrinha, vem, vamos lavar a cara, já não te posso ver assim!

E tu, com a inocência da idade:

- Está bem, Tia. Mas podes fechar os olhos para eu acabar de comer este pêssego?

Como a Tia se engana...

Quando estás comigo, apanho-te o cabelo num rabo-de-cavalo. Poucas vezes te dei a escolher, dizendo-te sempre que "meninas traquinas usam cabelo curto ou apanhado para brincarem descansadas". Nunca recusaste, e é quase um hábito mal chegas a casa da Avó ou à minha.

Antes do Carnaval, fui passar uns dias contigo. Em casa não costumas apanhar o cabelo, e fiquei muito espantada quando, no domingo à noite, me perguntaste se no dia seguinte te poderia pentear.

Disse que sim, claro, tinhas ginástica e pensei ser esse um mimo, uma forma de estares comigo um bocadinho antes de ires para a escola.

Às 7 horas e 40 minutos estavas à porta do meu quarto com a escova e um elástico.

 

Nesse dia fiquei acordada até muito, muito tarde... e 2 horas depois acordaste-me para te apanhar o cabelo.

- Claro, Querida! Mas não sabia que hoje também tinhas ginástica.

- Não tenho, Tia.

- Ah, pensei... 

 

Resolveste que todos os dias te apanharia o cabelo, e assim foi. E eu sem perceber o porquê da mudança, até me explicares que eu te fazia um "rabo-de-cavalo que se via no alto da cabeça".

Na quarta-feira à noite despedi-me de ti pois, embora te fosse levar à escola, não teríamos tempo para grandes despedidas no dia seguinte. Ficaste muito triste.

- Oh, Tia, não podes ficar até sábado?

-Não, Sobrinha, tenho reuniões marcadas.

- Oh Tia, e não podes ir embora só na sexta de manhã?

- Não, Sobrinha, não posso.

- Oh, Tia, mas sexta-feira é o Carnaval e eu vou vestir-me de Super-Mulher...

Estavas triste, a Tia tantos dias contigo e ia embora na véspera do dia mais importante da semana. Sem sequer te ver mascarada...

- Oh, Sobrinha, também tenho pena de não te ver! Mas o Pai e a Mãe tiram fotografias e mandam-me, está bem?

- Pois, está bem, Tia... mas quem é que me vai fazer o rabo-de-cavalo?! E logo na sexta-feira, em que queria estar mais bonita!

Um conto para um desenho

Histórias dos dias de ter de estar em casa

Telefonaste-me. Precisavas que te falasse de um conto tradicional para depois fazeres um desenho.

Aproveitei o pedido e contei-te a história de Pedro, o menino que gritava "lobo", já a pensar noutras actividades que te iria propor.

- Tia, já me contaste essa história, tenho uma vaga ideia... mas sou sincera,  não me lembro de nada!

Sorri ao ouvir-te a vaga ideia, e respondi ser uma óptima altura para a voltar a contar.

A história saiu mais simples do que o normal, pois querias um tema para um desenho e não uma história para te entreter. Percebeste os vários momentos da acção, fizeste perguntas, riste-te, e até decidiste fazer não apenas um mas quatro desenhos, uma verdadeira banda desenhada.

Quando passámos à escrita da história, que te iria ajudar na construção dos desenhos, a conversa já não correu tão bem:

- Tia, não foi assim que disseste há bocado!

- Tia, mas há bocado foi o chapéu que caiu quando eles fugiram, não foi o casaco...

- Tia, mas afinal ele gritava lobo por ser traquinas ou por ser mentiroso?

Expliquei-te que ao contar uma história as palavras variam, pois não as estamos a ler, e que até as situações podem ser contadas de forma diferente, como quando tu pegas nas histórias que invento e acrescentas pormenores ou mudas um bocadito das conversas.

Chegámos a acordo, e lá continuei a história, tentando usar as mesmas palavras e algo perdida por ocasionais interrupções "É ponto final, Tia, ou é vírgula?", "É com dois esses, pois é, Tia?". Foste escrevendo, mas quando chegámos à floresta onde o Pedro foi mordido,  tudo se complicou! A tia já não se lembrava exactamente de como tinha contado, sentia que faltavam alguns pormenores para que a história saísse bem escrita, tu já estavas cansada e já te atrapalhavas quando te pedia para leres "a partir de"...

- Sobrinha, tira uma fotografia ao que escreveste e envia-me, para ver o que falta.

- Está bem, Tia, envio já.

- E se fôssemos lanchar antes de continuarmos?

- Sim, Tia, o Pedro pode ser mordido mais logo.

A saudade e a responsabilidade

Histórias dos dias de ter de estar em casa

Ao telefone,

Num destes dias de ter de estar em casa:

- Sobrinha, estou com tantas saudades!

- Obviamente, Tia!

 

Não sei se fiquei mais risonha com o desplante desta resposta ou com a ternura com que acrescentaste:

- E achas que eu não tenho?!

 

Mas a gargalhada veio com a seriedade com que encerraste o tema:

- E, Tia, eu queria ir para aí, mas a Mãe e o Pai não podem e eu tenho que tomar conta deles... assim que puder, vamos, está bem?

A Sobrinha senhorinha

Sobrinha, estás uma criança muito alta, nem pareces ter 7 anos. E a Mana também está muito alta, mas a Mana já é uma adolescente, tem 13 anos. Dão-se muito bem, e conseguem encontrar interesses comuns, a Mana fazendo-te algumas vontades nas brincadeiras e tu tentando acompanhar os interesses da Mana.

E também é bonito ver como tratas os meninos e meninas mais novos do que tu, o ar calmo que tens quando brincas com eles jogos que há muito deixaram de te interessar e o cuidado e a atenção com que respondes às suas perguntas. 

Tu não te apercebeste, mas a tua Mãe ouviu um bocadinho da conversa que tiveste com a M., de 3 anos. E, claro, contou à Avó e à Tia, pois é uma forma de nos mantermos ligadas - como quando tu fazes caretas por falta de novidades...

Mas vou tentar que tu me contes o que conversaste com a M.. Gostaria de ouvir a tua versão. E a tua explicação. Aliás, penso que todos estamos desejosos de perceber a tua explicação.

Porque quando a M. te perguntou:

- Ainda és uma criança?

Tu respondeste:

- Não, sou uma pré-adolescente.

 

Brincadeira assim-assim

Ou quando os adultos e as crianças têm noções distintas de "nada para dizer"

Um destes dias, ao telefone:

- Sobrinha, conta-me como tem sido a vida na escola e fora da escola!

- Oh, Tia, não tenho novidades...

- Mas... não aprendeste nada novo, não fizeste nenhum disparate, não inventaste uma historinha, sequer?

- Nada, Tia...

E começaste a fazer caretas para a câmara, e quanto mais eu tentava falar contigo mais patetices fazias.

Tendo mais o que fazer, pedi-te para conversares um bocadinho ou teria de desligar...

e, despedindo-me, desliguei, porque tu calada e a câmara apontando para as paredes, para a rua, para todo o lado menos para uma Sobrinha em conversa com a Tia.

Um minuto depois recebi a mensagem:

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Enfim, já tenho trabalho para os próximos tempos: rever a diferença entre "brincar" e "fazer perder tempo e paciência". Contigo.

 

Tenho tantas saudades tuas, Sobrinha!

 

A Tia percebeu o que era bom para a tosse

Os doces nunca fizeram parte do teu quotidiano.

Terias uns 4 anos, a Tia descobriu umas gomas muito boas de eucalipto e outras de limão, que ajudavam a aliviar a tosse. Por isso, havia sempre uma bomboneira em casa da Tia e outra em casa dos Avós cheiinha de gomas de eucalipto e de limão! E dissemos-te que não eram guloseimas, que eram gomas para chupar quando se tinha muita tosse.

Mas cedo percebi que, mesmo assim, não poderia continuar a ter gomas nas bomboneiras...

- Sobrinha, já comeste três gomas hoje, não podes comer mais!

- Cof, Cof, Cof, Tia, estou com tanta tosse...

- Estás, querida? Então anda cá, a Tia dá-te uma colher de xarope.

- Não, Tia, a tosse já passa quando acabar esta goma, queres ver?